Desvelando as metáforas de “Raio Lento”:

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“[…] É que o Tempo é um raio lento, fantasma das palavras […]”

§- O texto já começa com uma metáfora: “tempo [é um], raio lento […]”. O traço semântico de temporalidade percorre claramente as duas bordas da metáfora. Assumindo a visão corrente do Tempo como sucessão, contudo, temos o substantivo tempo invocando o traço semântico de mais temporalidade, ao passo em que o sintagma raio lento evoca menos temporalidade, configurando então um paradoxo velado na metáfora. Essa contradição resolve-se quando se passa do Tempo como sucessão, o tempo da Física, ao Tempo como processo, como devir, ou seja, o Tempo da Vida. Que significa ser o Tempo um raio lento, portanto? Diz respeito a assumi-lo como processo presente. A passagem dos raios do sol à lua e da lua à terra é um processo. O raio, entretanto, agora também metáfora para o vivido, permanece o mesmo.

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Sobre o Tempo e “Raio Lento”

saturno cortando as asas do cupido

“Saturno cortando as asas do Cupido”, de Ivan Akimov

§- Qual a natureza do Tempo? Talvez tenha sido essa a pergunta que norteou o processo criativo de Raio Lento, canção composta por meu amigo Thiago Soares. Lançada assim pode parecer aos mais incautos ser essa uma pergunta simples e de resposta fácil. “Que seria o tempo, ora?! Aquilo que passa, ou o que faz passar as coisas”, diriam. Basta entretanto uma brevíssima passagem pela História do Tempo para percebermos que nosso tempo não se escreve com minúscula, tampouco no singular. Continue Lendo “Sobre o Tempo e “Raio Lento””

“Agrada-me puxar a corda do Ideal”

§- As astúcias da memória não poupam esforços em nos frustrar. “Esquecer é não ter sido”, diz o narrador d’A confissão de Lúcio. Como não desejo, portanto, que aquilo que pensei não tenha sido, resolvi escrever aqui; como artifício para não ser escravo da minha falta de memória. Não se incomode então se no percurso torno pública a minha estupidez. Mas – não minto – espero que, reparando na minha, você tome nota igualmente da sua.

§- É que “agrada-me puxar a corda do Ideal”, apesar de ultimamente puxar outras coisas também. Quando li esse poema do Mallarmé pela primeira vez – “O Sineiro”, o título – compreendi que nós platônicos e platonistas estamos fadados a enforcarmo-nos com a corda de nosso próprio Ideal. Não que necessariamente lutamos a sangue e suor por ele, mas a corda aperta, querendo ou não.

§- Só que não escreverei para desafogá-la. É boa e urgente a necessidade de se aprender a gritar com a corda no pescoço.