Sobre o Tempo e “Raio Lento”

saturno cortando as asas do cupido

“Saturno cortando as asas do Cupido”, de Ivan Akimov

§- Qual a natureza do Tempo? Talvez tenha sido essa a pergunta que norteou o processo criativo de Raio Lento, canção composta por meu amigo Thiago Soares. Lançada assim pode parecer aos mais incautos ser essa uma pergunta simples e de resposta fácil. “Que seria o tempo, ora?! Aquilo que passa, ou o que faz passar as coisas”, diriam. Basta entretanto uma brevíssima passagem pela História do Tempo para percebermos que nosso tempo não se escreve com minúscula, tampouco no singular.

§- Para Santo Agostinho, o tempo que há é o Tempo do Agora. O passado só existe como lembrança e o futuro como desejo. Entre esses dois, há o tempo em que lembramos e desejamos, o tempo em que somos, único tempo certo. É nesse instante infinitesimal que somos imortais. Já em Newton, temos outro Tempo. Em sua Física, o Tempo é uma entidade que só pode ser atingida pelo Espaço. É calculando o deslocamento de um corpo que sabemos do Tempo – esse tempo quantitativo. Sem o deslocamento, portanto, sem o movimento, não há Tempo. Em Camões, por fim,  temos o “tempo que tudo desbarata”, expressão recorrente em sua lírica. Esse Tempo que a tudo destrói e gasta só poderia ser o Tempo de quem pôde ver o declínio da visão de mundo medieval no Renascimento, a descoberta de novos mundos nas Grandes Navegações e a ascensão dos valores humanistas. Reparem que não fiz um percurso cronológico da História do Tempo. É que desejo com isso chegar no(s) Tempo(s) de Thiago Soares.

§- O eulírico – sim, escrevo junto propositadamente -, qual Hermes, é armado com “asas ébrias” nos pés. O adjetivo casa bem, porque o tratamento dado ao Tempo será antes estético que discursivo, antes oblíquo e embriagado do que reto. Afinal, o próprio meio pelo qual se penetra na natureza do tempo – a linguagem – provoca, segundo o entendimento do eulírico, uma distorção sobre aquilo do que se fala:

“mesmo sendo tudo esparso
quando se dobra o Verbo”.

Se o Tempo e as coisas não se deixam apreender pela linguagem, como tratar sobre sua natureza, então? O eulírico resolve esse problema por meio da linguagem estética. Assim, durante toda a letra, a natureza do tempo não é trabalhada em termos conceituais, mas metafóricos, onde o “tempo é raio lento” e “fantasma das palavras”.

§- Que significam essas metáforas? Bem, isso é assunto para um outro texto. Por quê? Porque estou sem Tempo.

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Autor: Vasil

Estudante de Letras, fascinado por crítica cultural, leitor de coisas velhas e mofadas, péssimo em resumir-se.

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