Desvelando as metáforas de “Raio Lento”:

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“[…] É que o Tempo é um raio lento, fantasma das palavras […]”

§- O texto já começa com uma metáfora: “tempo [é um], raio lento […]”. O traço semântico de temporalidade percorre claramente as duas bordas da metáfora. Assumindo a visão corrente do Tempo como sucessão, contudo, temos o substantivo tempo invocando o traço semântico de mais temporalidade, ao passo em que o sintagma raio lento evoca menos temporalidade, configurando então um paradoxo velado na metáfora. Essa contradição resolve-se quando se passa do Tempo como sucessão, o tempo da Física, ao Tempo como processo, como devir, ou seja, o Tempo da Vida. Que significa ser o Tempo um raio lento, portanto? Diz respeito a assumi-lo como processo presente. A passagem dos raios do sol à lua e da lua à terra é um processo. O raio, entretanto, agora também metáfora para o vivido, permanece o mesmo.

§- Asas nos pés, ébrias ou não, evocam a figura do deus grego Hermes. Esse plano figurativo, adentrado quando reparadas as semelhanças de elementos, nos permite pensar no deus mensageiro – mas também deus da alquimia – como figura que ata as duas pontas do processo desse raio lento.

§- O traço semântico de mais passado no verbo lembrar insere a dinâmica e abala o antes estático discurso sobre o Tempo. É importante tomar nota de que tal verbo assume valor intransitivo. O ato de lembrar, assim tomado, não diz respeito à simples postulação de dois pontos no tempo, o ponto em que lembramos e o ponto que é lembrado, mas à abertura de um horizonte temporal mais largo, marcado pela distância temporal e simultaneamente pela presença provocada pelo lembrar. Esse ato traz o lembrado para o presente, e ao mesmo turno localiza-o no passado. Tal tensão temporal, quando organizada – tudo laço – revela o próprio paradoxo de tratar sobre a natureza do Tempo usando um meio que o distorce – a linguagem -, como tratei em outro texto. O conflito está marcado na própria rima: laço x esparso.O tratamento estético, investido tanto nessas tensões de ordem semântica como na crescente passionalização da melodia, é responsável por resolver – ou melhor, suavizar – esses paradoxos.

§- Bocas e pés espelhados” não é daquelas metáforas que recorrem à simples recorrência semântica para gerar sentido. figurativiza percurso e boca, afeto. Usamos os pés para percorrer e bocas para trocar afetos. As três palavras do verso seguinte – “estelares olhos corolários” – evocam o sentido de sinal. Pelos olhos temos sinais do estado emocional do outro, pelas estrelas se reconhece a rota e pelo corolário se reconheciam os grandes atores na Roma Antiga. Em outras palavras, esse verso assume o sentido de aquilo que nos comunica algo indiretamente, que nos aponta. A dupla adjetivação no substantivo olhos cerca-o sobre o signo da sugestão.  Em “já nascemos imortais”, a voz do eulírico já não é a única, pois o verbo na primeira pessoa do plural insere um nós no texto. Parafraseando e atando os fios, toda essa estrofe pode ser lida da seguinte maneira: “Nós já nascemos imortais quando nosso afeto e percurso comunicam-se – ainda que obliquamente – com o afeto e o percurso do Outro”.

§- Já nascer imortal significa abolir passado e futuro da sua gramática. Significa viver fora do Tempo ( ou em um que não passe). Um eterno agora redentor, para alguns, ou um agourento agoral para outros. Assumir o abismo sem medida da eternidade significa mirar um horizonte bem distante do nosso. Portanto, é quando a alteridade entra no texto, quando o Outro encara o Eu, quando o eu torna-se nós, que podemos superar as trincheiras do paradoxo. Alguns atribuirão essa função de elo ao Amor, outros à Luta Social, e ainda alguns à Religião. Eu atribuo ao Tempo. É ele quem desata o nó que nos faz migrar de horizonte.

§- Uma abordagem psicanalítica possivelmente dê outro sentido a essa estrofe.

§- Preferi, entretanto, persistir em uma abordagem “linguístico-filosófica” mais estrita.

§-  No refrão, o gênero dramático marca presença, substituindo o nós pelo diálogo entre o eu e o tu. Nada resta a partir dessa etapa para o sujeito a quem o eulírico dirige seu discurso. O ser e o ter, aqui não tomados em oposição, como uma ontologia (pseudo)marxista de ordem rasteira poderia crer, constituintes da essência do sujeito, dele são ceifados pelo Tempo. Se Saturno – o Tempo – corta as asas do Cupido em um motivo da pintura clássica europeia, por que não havia ele de arrancar a própria essência do sujeito? Não é isso o que acontece, entretanto, pois pelo menos ainda resta  “a hora da véspera”, o tempo antes do hoje: nosso passado. É esse fantasma das palavras” – fantasma por deixar as marcas do seu percurso em nosso discurso – quem, após a queda de todos os elementos constituintes de nossa essência, continua marcando-a presente. É somente no nível da retórica estética do texto que o sujeito perde o seu ser, portanto, pois enquanto houver Tempo, haverá ser.

§- O clímax dramático da canção, portanto, do aspecto melódico e verbal do texto, está na segunda glosa do refrão. O sujeito a quem o eulírico se dirige – que no fundo somos nós mesmos – parece fugir da cruel verdade antes anunciada. As rosas que não respondem são, além de uma referência ao clássico do sambista Cartola (1908-1980), uma metonímia para a Natureza. Quando, na hora severa, nem mesmo a Natureza, companheira de conversas do Romantismo, responde aos apelos do sujeito e Nela ele não encontra mais fonte de redenção, a quem recorrer?

§- Somente o Tempo que, deslendo Camões, “a todo nó desata” pode nos levar para lá. A oposição espacial entre e aqui permite uma leitura dupla. A primeira, de uma metafísica simples, diria que o Tempo, desatado o nós, nos redime da matéria e aplaca a hora severa, levando-nos ao mundo perfeito e eterno. Uma outra, mais imanente, diria que só o Tempo, em seu papel hermesco de estabelecer elos, laços de comunicação – como o deus Hermes – , fazendo-nos então migrar de horizonte, é quem pode nos levar para o Lá: o diverso do idêntico.

§- Tempo e Alteridade, por fim, vinculam-se nessa leitura.

§- Em momentos de tensão discursiva e ideológica como o atual, onde a comunicação parece tarefa impossível e para muitos desnecessária, digo que só o tempo como elo pode nos findar.

Ouça a canção Raio Lento no link:

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Autor: Vasil

Estudante de Letras, fascinado por crítica cultural, leitor de coisas velhas e mofadas, péssimo em resumir-se.

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