“Gregório de Matos é eleito prefeito de Fortaleza”:

gregorio-de-matos-biografia

 

§- Muitos dos poemas atribuídos a Gregório de Matos são de autoria incerta. Sua “obra”, portanto, ainda demanda cuidadosos estudos. Mesmo conhecendo esse problema da historiografia literária do Brasil, não consigo deixar de entender aqueles poemas como a manifestação de uma mesma psicologia. Quando percorro as páginas do Códice Asensio-Cunha, não consigo deixar de gostar da ideia de que a mesma mão escreveu todos esses poemas. Não consigo ver nos textos daqueles tomos a figura do mesmo homem, da mesma cabeça e da mesma história privada. Alguns historicistas de pouco calibre imaginativo dirão faço isso por falta de trato filológico, bastando duas ou três pesquisas para abolir o fantasma do autor uno.

§- A questão não é assim demais simplória como parece. Na verdade, costumo ler Gregório de Matos de duas maneiras, assim como sugere João Adolfo Hansen. A primeira, por mim ainda não concluída – e talvez nunca o faça -, procura situar o texto no seu espaço e tempo de produção, portando, busca fidelidade filológica. A segunda, antes desleitura que leitura, para lembrar um conceito de Harold Bloom, procura deslocar a obra de seu contexto de produção originário, pondo-a em livre perspectiva.

§- É nessa segunda maneira de ler Gregório que o fantasma do baiano suspeitíssimo – e possivelmente picareta – me persegue.

§- Como resultado disso, ouço a voz de um desbocado que a tudo engole, inclusive a si. Nesse mira, interessam não os seus sonetos de arrependimento duvidoso, mas a sátira gulosa: essa que não permite ao leitor cético botar fé nem no criticando, tampouco no criticado. É dessa lavra o atualíssimo soneto sobre a vida estudantil:

“Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante”.

§- Ora, admita que visualizou pelo menos seis – seis?! quiçá sessenta! – pessoas dentro desse geral perfil. Nesses momentos eu vejo um Gregório de Matos matando aula de Introdução à Linguística no bosque Moreira Campos, escrevendo sonetos de domínio suspeito. Eu? Só observo.

§- Ainda há lá as vezes em que ele pega uma 55 comigo, tem sua carteira batida e brada em plena Bezerra de Menezes:

“De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder”.

§- Salvador é Fortaleza. Brasil Colônia e Brasil da Cobra. Séculos XVII e XXI. O que mudou? Furtar e fuder é coisa bíblica de tão antigo.

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Autor: Vasil

Estudante de Letras, fascinado por crítica cultural, leitor de coisas velhas e mofadas, péssimo em resumir-se.

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