A Mímesis de Tarantino:

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§- O meu querido diretor e roteirista, célebre por filmes homéricos como Kill Bill e Pulp Fiction, tem uma outra fama, que não diz respeito diretamente  ao Cinema: a de ser gente boa. Mas se tem uma coisa que deixa ele puto é quando lhe fazem perguntas capciosas sobre o peso negativo da violência em seus filmes [1]. Não é pra menos. Além de ser uma pergunta velha, cuja resposta Tarantino já está cansado de dar, é baseada em um falso raciocínio: o de que a violência do Cinema – e da Arte em geral – é a mesmo dos policiais, traficantes armados, motoristas de Land Rover [2], enfim, daquilo que conhecemos vagamente como “o mundo-Real”. Acontece que são dois fenômenos de natureza distinta e um pouquinho de Aristóteles nos ajuda a entender por quê.
§- No segundo parágrafo de sua Poética, o filósofo grego apresenta o que ele considera como o denominador comum da poesia: a mímesis. Depois de um gap de séculos sem acesso a esse texto e inúmeras leituras e desleituras acumuladas, passou-se a estender esse conceito para as outras artes que não somente a poesia. Mas o que significa mímesis? Ao pé da letra, imitação. Para os gregos, diferente dos cristãos, o Ser não poderia surgir a partir do Nada. Logo, eles não concebiam a ideia de criação propriamente dita. Tudo que surge, surge a partir de algo. A mímesis, portanto, funda uma realidade imaginária tomando como base a realidade propriamente dita. Nesse processo, sempre perdemos algo do original (o que na verdade é o que faz a mímesis gerar conhecimento). Seria impossível para nós seres humanos, com recursos técnicos e cognitivos limitados, elaborar uma mímesis total, ou seja, um produto artístico que não tome como base uma parcela do Real. Assim, para resumir, mímesis é a imitação ou cópia criativa do Real.
§- Para melhor esclarecer a natureza diversa das duas violências, me permito citar um poema já exausto de tão repetido: O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chegar a fingir que é dor / A dor que deveras sente. O que Fernando Pessoa diz nessa quadrinha é mais ou menos o seguinte: o poeta, ao transformar sua dor em poesia, faz com que a dor escrita não seja exatamente a mesma dor sentida. Tarantino também trabalha nessa esteira. Ele mimetiza a violência, usa-a como matéria artística. Seu efeito, portanto, não é o mesmo da fonte. Quando nos deparamos com a violência cotidiana, ela nos provoca diversos sentimentos – dor, medo, revolta etc. –, mas dificilmente irá provocar aquilo que só a violência transmutada em arte consegue: a catarse, a purgação ou exortação de sentimentos profundos devido ao trato estético, ou seja, ao embelezamento da matéria original. Assim, a violência de Tarantido não é a violência “real”, mas a violência estética.
§- Outro fenômeno interessante de se notar na obra desse diretor é como sua mímesis tem um duplo aspecto. Ela trabalha basicamente sobre duas operação: há a mímesis da violência “real” e a mímesis da mímesis, ou seja, a cópia criativa de outras representações de violência presentes na tradição do cinema ocidental e oriental. É essa segunda mímesis que faz dos filmes de Tarantino um verdadeiro intertexto, um filme onde diversos outros filmes estão presentes em sua ausência. Ele não é o primeiro a trabalhar conscientemente isso em arte. Camões, para citar só um exemplo, se aproveitava de pelo menos três fontes em seu processo mimético: da tradição greco-latina, do humanismo italiano (e.g. Petrarca e Dante) e da própria “realidade” (ou Natureza, como entendiam seus contemporâneos).
§- Eu acredito que essa violência estética presta um serviço enorme. Se eu pretendesse ter filhos, um de meus projetos seria o de uma educação pela violência. Cada katanada da Noiva, cada gota de sangue derramada por Django ou pelos Bastardos Inglórios contém uma verdadeira lição de moral e uma representação da nossa natureza como gente que mexe com fogo e aço a todo tempo, mesmo que a katana e a AK-47 estejam guardadas bem no fundo de nossos sonhos. Ou você não acha que sangue escrito no papel ou projetado na parede é uma maneira de salvar o nosso próprio sangue?

1- https://www.youtube.com/watch?v=u7ER_q0B1-I

2- http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/policia/online/crianca-morre-atropelada-na-maraponga-e-policia-investiga-o-caso-1.1639044

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