Por que eu não consigo escrever?

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Autorretrato, Gustave Coubert

§- Eu tenho dificuldades para escrever com frequência. Isso diz muito respeito a duas coisas minhas que costumam andar juntas como irmãos siameses. Aquilo que me paralisa o ofício nada mais é senão o pecado da preguiça aliado à vontade de conceber o Absoluto.

§- Se tem uma coisa que me deixa incomodado é a crença que não se justifica, quando alguém lança uma opinião como se fosse um dado da ordem das coisas, portanto absolutamente objetivo e escusado do trabalho do logos, do discurso, da razão. A doxa, em um ato de fala, só tem valor para mim quando ela está justificada (não precisa necessariamente ser verdadeira, afinal, isso nós vamos descobrindo e corrigindo depois, com o dia-logo[s]). Quando não, penso que ela, a doxa, nada mais seja do que sua versão degenerada: a ideologia.

§- Desejando muito conceber aquilo que é, independente de tempo ou espaço ou sujeito, portanto, aquilo que não é relativo a alguma coisa, mas que é absoluto em si, me vejo ainda diante de dois empecilhos. O primeiro é a própria matéria-prima que tenho disponível para operar, ao passo em que o segundo diz bem mais respeito ao operador. Temos diante de nós uma realidade material que, como bem reparou Heráclito, veio do fogo e ao fogo retornará. Queima-se constante na mudança e para captar seu nervo mais perene é necessário grande esforço da mente, e aqui vem a parte onde a preguiça me corta as pernas. Aquele segundo obstáculo, por sua vez, diz respeito a mim, mas também a nós. É que tenho, na espécie, lacunas em minha formação e desse modo não tenho acesso a técnicas que me ajudariam a operar melhor esse cavalo selvagem chamado fenômeno, e mesmo que houvesse eu estudado mais no passado, ainda não poderia saber de tudo porque tenho, no gênero, – temos – uma razão e um tempo limitado.

§- Tudo isso me provoca uma angústia, uma ansiedade muito grande que eu chamo de Angústia da Ideia. Ela nos lança num Tédio – L’Ennui dos poetas simbolistas – que… esse sim é absoluto. Tristemente absoluto às vezes.

§- Mas, lembrando, a introdução da Fenomenologia do Espírito, do Hegel, talvez esse meu medo de escrever seja antes medo de errar, e isso provoca o efeito contrário do que se deseja. Com medo de não estar próximo da Verdade, acabo abortando meu percurso, que na verdade deve ser um percurso coletivo, o qual envolve vozes mortas e vivas que não são nossas, mas da qual nos apropriamos. Percebo portanto que aquilo que me paralisa é menos a preguiça e mais o orgulho, a soberba.

§- Eu não posso ter medo de errar. Exercitar minha boa disposição ao erro é um trabalho de duplo resultado: ético e epistemológico. No primeiro caso porque isso  faz eu me conhecer melhor e reconhecer o valor do Outro, do não-Eu que é também um Eu fora de mim e que toma parte essencial em nossa busca ingênua, mas produtiva, por esse tal de Absoluto; no segundo, me força a trespassar os limites da própria razão que dispomos.

§- Eu penso que, dessa maneira, essa corda azul que brilha amarrada no nosso pescoço chamada Ideal nos deixa mais vivos quanto mais nos enforca.

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Autor: Vasil

Estudante de Letras, fascinado por crítica cultural, leitor de coisas velhas e mofadas, péssimo em resumir-se.

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