O Sublime Fracasso: Zona Nobre do Fundo do Poço

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A.S. Neste texto, tratarei sobre os Experimentos Existencialistas vol. I e II, trabalho do projeto musical chamado Zona Nobre do Fundo do Poço, cujo realizador é José Ramiro Martinez. Para compreendê-lo é necessário ouvi-los integralmente. Ouça pelo Banana Records ou pelo Soundcloud da ZNFP abaixo:

Vol. I pelo Banana

Vol. II pelo Banana

 


O sentido da modernidade pode ser fudido

§- Um dos retratos mais comuns da Modernidade é o da degeneração. Não é para menos, também. Quando pensamos no sentido das coisas, atualmente, somos por vezes levados a esta conclusão: a de que ele é fudido, como bem diz o trabalho musical que pretendo analisar aqui para tomá-lo como base para alguma reflexão – Ser-aí-fudido: eis o sentido do moderno. Mas não penso, como os adeptos do Romantismo, que isso se deva à quebra com uma ordem natural que deixamos de mirar, necessariamente, mas a uma tomada de consciência. Nós percebemos, com o espírito e com o corpo, que aquilo que tomávamos como Absoluto é, na verdade, relativo e circunstancial.

A Bastilha do Absoluto

§- A antiga sociedade de estamento, a conjunção entre poder temporal e poder espiritual na imaginação coletiva, o encantamento com o mundo imediato, para roubar criativamente uma expressão de Weber, pareciam sustentar uma imagem mesma do casamento entre a ala mais nobre com a mais podre do mundo. Viver, antes da Modernidade, representava ter a visão de um horizonte macio diante desse nosso vale de lágrimas. Contudo, essa estrutura delegava um sentido ao viver. Derrubada a Bastilha – uma Bastilha bem menos física, de tijolo e aço, do que sinapse, imaginação e sopro -, era como estar-se livre para ver o mundo como ele realmente é… fudido. Nós, que éramos prisioneiros desse Falso Deus, passamos a perceber que a vida é livre de sentido quando sua cabeça rolou ao duro golpe da guilhotina. “Deus está morto”, é a famigerada bravata de Zaratustra. Ora, Deus nada mais é que uma metáfora para o Absoluto nesse texto. Nietzsche não fez sociologia da religião ao escrever isso, mas lançou, ao mesmo tempo, um projeto e um diagnóstico. Não vale mais nada, dentro dessa narrativa, olhar com olhos de Deus ou de pássaro, como aquele que tudo , que tudo capta em um só ato de pensar, mas trabalhar com perspectivas. A partir disso não é difícil pensar que o sentido da vida não se descobre, mas se inventa. Alguns prisioneiros, contudo, ao saírem das celas da Bastilha para as praças do mundo, sentiram-se saindo de uma prisão para outra: a prisão do mundo, cujo sentido é… fudido. O que na verdade os afetou e afeta é a carência de Absoluto. Se a vida não tem sentido, não vale a pena inventá-lo, pensam. “Se Deus está morto, tudo é permitido”, inclusive o desespero. Esse aforisma apócrifo, atribuído hora a Dostoiévski, por culpa do Sartre, hora a Nietzsche, por culpa do reducionismo, é o corolário do niilismo entendido em seu sentido estrito. Se o Absoluto nos deixou, estamos todos fudidos. Posso imaginar o Voltaire, trajando toda a pompa neoclássica, percorrendo os escombros da prisão, dentro de outra prisão – a do mundo – acompanhado de Diógenes e sua lanterna, tentando ver melhor se chove mais merda. “O desamparo implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser”. Quando o Sartre disse isso, ele não quis que o desamparo nos paralisasse a ação e o pensar, que também é ação, mas que não podemos contar com ninguém além de nós mesmos para tomarmos nossas decisões. Todavia, há um desamparo que não é somente ético, mas ontológico. Sentimos falta de uma substância, com efeito profundo de real, que nos arraste para o ponto onde todos os pontos estão presentes. Em um mundo sem Deus – e agora uso a palavra no seu sentido mais comum – o amor romântico poderia muito bem suprir essa ausência de realidade-em-máxima-potência, ou, em termos aristotélicos, em máximo ato.

Esqueçam sobre o amor

§- Contudo, como recorrer a essa maldita criança armada e cega, se ela demanda duas subjetividades como sacrifício? E se o querer de uma não mais andar no mesmo passo do querer da outra? Resta-nos recorrer a uma outra ponte para o Absoluto, uma que nos demande nada além de nós mesmos: a Arte. É por meio dela que Ramiro Martinez briga contra o desamparo, que acredito ser também reflexo de um drama interior. Como é típico do artista moderno, cujo pai é Baudelaire, Martinez procura extrair beleza da banda podre da realidade. Assim como o pai francês, o nosso carioca explora e redescobre uma série de técnicas e posturas herdadas do Romantismo Germânico. A principal delas, ah! meus queridos, é a doce e malquista Ironia.

Moro em minha própria casa

Nunca imitei ninguém

E rio de todos os mestres

Que não riem de si também

(Nietzsche)

§- O niilista que não ri de si é algo bem próximo do ressentido. Já o que o faz, mais semelhante ao Seu Madruga que ao Sméagol, consegue ter aquele amor fati, amor ao fado, que o leva a viver um ciclo somente, o da vida, e ter diante de si um abismo menos dolorido. Não entendo amor fati como resignação, mas como um verdadeiro ato de resistência: o de não permitir a força arrasadora do Abismo nos conduzir a imitar a (a)lógica do absurdo. No término das contas, deixa de ser niilista quando gargalha ao sem-sentido do Abismo, porque esse riso tem textura, tem corpo; esse riso é, portanto, ele impossibilita haver o Nada absoluto.

O belo é o riso

§- Mas o que é exatamente a Ironia? Grosso modo, ela ocorre quando se afirma no dito, mas se nega no não dito. Para complementar, podemos dizer, em termos semióticos e furtando a Luiz Fiorin, ser ela um procedimento textual que inverte os functivos veredictórios, transformando negação da enunciação (que implícita) em afirmação no enunciado (que é explícito). A Ironia abala, provoca profunda desordem no estatuto de verdade das coisas, justamente porque ela própria se manifesta na linguagem dessa maneira. “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, assim falou Wittgenstein. Não poderia ter dito melhor. Ora, mas por que não também “os abalos na minha linguagem são os abalos no meu mundo”? A Ironia é poderosa. Puissante. Tão poderosa e empoderada que pode devorar até mesmo aquele que dela faz uso, como bem sugeriu Mallarmé em um de seus poemas mais incríveis:

Do eternal azul a serena ironia

Acaba, bela e indiferente como as flores,

O poeta incapaz que maldiz a poesia

A atravessar deserto estéril de Dolores”.

A serena ironia do Absoluto acaba com o poeta incapaz que maldiz o seu gênio, forçando-o a atravessar as dores da esterilidade criativa”. A ironia é a figura que percorreria o texto de Martinez de ponta a ponta, se não fosse por duas canções, Heráclito e a Dialética e Meu Recado, as quais eu acredito ser as melhores do “disco”. Desabafo entraria naquele rol, mas eu a considero bem mais um epílogo do que como parte constituinte, apesar de integrada, afinal, o Martinez mesmo nos avisa: “Não encare isso como uma canção, encare como um desabafo”. E é curioso, porque assim os Experimentos Existencialistas I e II adquirem uma simetria numérica, além da poética. Três canções no primeiro e três canções e um epílogo no segundo formando sete peças (um número místico, vejam só), com as músicas do extremo utilizando a ironia como procedimento textual ao passo em que as canções do meio usam um ponto de inflexão dramática, proveniente da ironia, como motivo. É quase um silogismo, de uma simetria quase-pitagórica. Percebemos como de fato os dois EPs parecem sido feitos para serem ouvidos juntos, formando um todo estável. Esse aspecto, apesar de semelhar-se à visão de Belo como harmonia e ordem da arte clássica, portanto, supostamente contrastaria com a proposta moderna dos discos, não torna a obra incoerente, senão na verdade, compete para complexificar o trabalho, dando-nos mais um dispositivo para gerar sentido a partir do texto. Essa unidade se reflete também em unidade de voz, ou seja, durante o texto, sentimos que há uma mesma personagem presente em todas as canções dos Experimentos.

Casamento: O Eterno Retorno

§- Na primeira faixa, Casamento, a ironia se manifesta tanto no texto verbal quanto no não verbal. No arranjo, a pontual inserção de um acorde dissonante feito por um piano texturizadíssimo elabora a atmosfera de desarranjo irônico com a crescente passionalização melódico-harmônica. Na borda verbal do texto, é o jogo com o prosaico – maçã, sexo casual – quem opera a ironia. O universo pretensamente puro e sublime do amor romântico é pervertido e sua suposta realização não é nada mais que um eterno retorno do mesmo; “todo dia, toda noite”. O Eterno Retorno nietzschiano tem um fundo cosmológico, além do ético, como nos mostra Scarlett Marton. Ele bebe do atomismo grego para então fazer um salto de sentido que não estava na investigação dos naturalistas pré-socráticos. Assim temos o quadro: não podemos dividir a matéria ao infinito porque senão ela seria infinita em infinitos pontos, portanto, deve haver um ponto em que ela é indivisível; a Sem-Parte. Á-tomos. Por esse modo, temos um número limitado de combinações e infinitas maneiras de fazê-la, assim, as combinações podem se repetir. Esses átomos que constituem seu corpo no momento em que olha para a tela e lê estas palavras já esteve como está agora e estará mais uma vez. A vida é, por natureza da matéria, um eterno retorno. O ponto ético é: como essa ideia lhe parece? Ela te incomoda? Se sim, como agir para viver uma vida que valha a pena ser vivida ad infinitum? Em Casamento, contudo, o amor romântico estabeleceu um ciclo dentro do ciclo. Um eterno retorno dentro do próprio Eterno Retorno que é a vida. A partir desse ponto a Ironia é tão amarga que não resolve o problema, gerando o ponto de inflexão perfeito para a canção seguinte.

Heráclito e a Dialética: O Fluxo

§- “O começo ao fim levou, mas foi feliz anos atrás”. Essa percepção de um tempo diferente do agora agoral, enroscado no prosaico, quando foi feliz, gera a consciência mesma do tempo. É quando esse último verso é lançado que o sujeito enunciador do texto de Martinez passa do hetero ao autodiegético, grosso modo, quando o foco passa da terceira para a primeira pessoa, do Ele pro Eu. Em Heráclito e a Dialética é como se a persona da narrativa fosse lançada para o mais arrebatador e deletério fluxo da dúvida. Ela veio dessa consciência do prazer efêmero, do feliz-anos-atrás, e essa impossibilidade de conceber um prazer perene gera um drama interno tão potente que nem mesmo a serena ironia consegue resolver. Nesse momento uma dúvida hiperbólica, diferente da cartesiana, se instala no discurso. Na primeira estrofe, sujeito, alteridade, realidade objetiva e absoluta é abalada por aquele mesmo fluxo. A passionalização da tessitura melódica gera uma verdadeira tensão, reflexo desse abalo profundo. É interessante como a interpelação constante a um Tu/Você inscrito no texto compete para gerar coesão, progressividade e narrativa no texto. Na canção passada, foi a separação do Sujeito com o Outro, do Eu com o Tu que provocou a percepção do prazer efêmero e da insubstancialidade do que era como tomado como o real em máximo grau, como Absoluto. A leitura que Martinez faz do filósofo naturalista Heráclito é trágica. “Quem sou eu e quem é você se, um dia, o que pensamos podemos não mais pensar?”. Da dialética da physis de Heráclito, Martinez extrai a dialética da psyché. Nessa narrativa, mente e mundo são consubstanciais. O mundo é o que pensamos dele. Percebe-se o existencialismo da Zona Nobre do Fundo do Poço não só no título dos dois trabalhos, mas na poética mesma das canções. Contudo, se o que penso de mim e do mundo é arrebatado pelo devir acerelado, como agarrar sua substância? “O vazio normal / que tu também deve sentir / suponho não há jeitos reais / de suprimir”. Como agarrar sua substância se o Eu e o Outro não estão em conjunção. “E quem diabos é você?” Se não sou Eu, portanto, se não tenho como conceber o Outro, o Diferente, não posso conceber o próprio mundo. Em Heráclito e a Dialética, essa tensão dramática é resolvida pela via estética. O texto de Martinez não é somente a palavra, mas a canção, que é tensão entre melodia e palavra ou, esteticização da fala. A cadência melódica e rítmica, a atmosfera musical, ricamente trabalhada em sua textura, são o ponto de sublimação dessa tensão. É por apresentar em grande ato e potência boa parte daquilo presente na Arte – do tipo mais completo e profundo de arte – que considero essa uma das melhores canções dos Experimentos Existencialistas. Nela há desautomatização dos afetos, um ponto de problematização mais denso, tensão dramática e uma via de sublimação. Todos esses pontos são retomados e reforçados em outro dos pontos mais nobres do fundo do poço, a canção Meu Recado, que, como já disse, também não recorre à ironia como procedimento dominante.

De Copacabana à Polinésia Francesa: “é só uma piada”

§- Não obstante, devo seguir o percusso do personagem. De Copacabana à Polinésia Francesa é um retorno à ironia. É como se a personagem dos Experimentos engolisse o choro e imprimisse a tinta da galhofa na pena da melancolia, tornando ao espetáculo irônico em uma melodia feliz que serve de fundo à piada cruel. A personagem retorna mais cínica das águas do rio heraclitiano. A ironia se torna mais amarga e escancarada, algo bem próximo do deboche. Retornando cético e cínico da reflexão anterior, à personagem só resta o riso. De Copacabana à Polinésia Francesa, de borda a borda do hemisfério sul, na Zona Nobre do Fundo do Poço, só nos resta a piada, un gai savoir . É difícil não perder-se na banda podre do real quando estamos carentes de Absoluto, mas felizes aqueles que guardam a piada. Essa estirpe de gente tem consigo algo bem próximo do saber alegre, do gai saber presente nos trovadores provençais. A personagem é espirituosa – spiritus, em latim, também significava respiração. Segundo uma doutrina que remonta a Anaxímenes de Mileto, o ar era o princípio, a arché, e nossa alma seria igualmente parte desse princípio. Que fazemos quando rimos, senão soltar o ar/espírito impuro do que o real nos faz respirar? Apesar de tudo, a espirituosidade somente faz suportar, mas não nos aqueta a vontade de Absoluto, nossa vontade de Sentido. Impor a alógica do riso à alógica do absurdo nos serve de freio, ou ponto primeiro de inflexão, mas nunca de chegada.

Vosmicê: Le gai adieu

§- A primeira canção do segundo volume dos Experimentos leva a outras consequências muitos procedimentos e temas explorados no EP anterior. A dúvida hiperbólica não-cartesiana agora passa a encontrar um pouco mais de substância nas coisas e não leva a personagem ao arrebatamento do fluxo do devir acelerado. Contudo, a substância que essa reflexão encontra é uma substância negativa. “Será que um dia o mundo vai pensar sobre trabalhar?”, diz o verso. Aqui há uma fina ironia, próxima de uma esperteza machadiana, entre o que se parece afirmar e o que se parece negar. O ritmo alegre da canção poderia arrastar o ouvinte/leitor distraído para o conteúdo retórico daquele enunciado. Poder-se-ia pensar que o que a frase veicula é o conteúdo semântico positivo do trabalho, mas aí entra a cambalhota sagaz do personagem. A estrofe seguinte revela que o que é indagado no enunciado, na verdade, é o conteúdo semântico oposto. A pergunta é “será que alguém já pensou que a vida do trabalho nos arrasta para mais um ciclo dentro do ciclo?” Aqui a personagem já está madura para a alógica do absurdo provocada pela automatização da vida psíquica, para usar um termo do esteta russo Chklovski, cujos efeitos geravam o drama principal da canção de abertura do primeiro Experimento. Em Vosmicê, o personagem do texto já está consciente do problema de enfrentar o Abismo com mais abismo, de submeter-se a uma existência cíclica dentro do próprio ciclo do eterno retorno, e ele tenta alertar sobre os abusos do abismo, usando a ironia novamente como arma discursiva principal, ao tu inscrito no texto, ao enunciatário, ou seja, a Vosmicê. Essa tentativa de reatar o contato com o Outro, de estabelecer uma comunicação substancial – expressão de Eric Voeglin – realmente parece ser umas das principais buscas da personagem. Contudo – e eis um ponto para ser discutido atualmente –, até onde a Ironia, essa senhora do não e imperatriz do sim, pode nos ajudar a estabelecer esse tipo de comunicação? Aparentando já está fora do ciclo duplicado do eterno agora agoural, a personagem parece na verdade fazer uma espécie de exorcismo. É para livrar-se ainda das reminiscências de sua angústia que a personagem provoca o ouvinte. “Vá, e seja feliz se acaso puder, porque eu não consigo”.

O sublime fracasso

§- Meu Recado, na minha opinião, é o grau máximo do disco. O ponto de inflexão desse momento é justamente aquela falta de comunicação substancial, ou seja, a falta de um laço comunicativo que possa de fato construir. Já sabemos como o peso deletério do fluxo é insustentável para o sujeito. Desse modo, faz-se necessário o influxo de outras vozes que não a do Eu. É a partir desse Eu fora do Eu que podemos compreender melhor o que de fato é realidade. Em Meu Recado, nessa esteira, temos um feixe de três vozes na primeira estrofe. Do primeiro verso, não sabemos a pessoa gramatical. A elisão do sujeito da oração elabora o vago e o sugestivo dessa estrofe, apontando mais uma vez o quão próxima a Zona Nobre do Fundo do Poço está da tradição simbolista de um Baudelaire. Não sabemos se é a segunda – você veio […] – ou a terceira pessoa – ele veio […] – que marca esse espaço vazio, tampouco quem são os sujeitos que interagem nos versos seguntes – “Quem lhe acompanha? – Quem não tem pudor”, ou o terceiro sujeito que acompanha o segundo. Mas no nervo dessa polissemia há isto: a conjunção, o encontro entre sujeito e sujeito e a audácia moral – quem não tem pudor – como centro de sentido. Audácia moral significa estar próximo de Satã, não ter pudor, não ter nenhum sentimento de vergonha diante do que costumam considerar sujo. O Satã de Milton não tem pudor. “Better to reign in Hell than serve in Heaven”. Melhor reinar no Inferno que servir no Céu. Que sentimento mais humano! É o retrato dessa banda podre do nosso espírito, hora sublimada pela ironia, hora pela tensão dramática, que percorre os Experimentos de ponta a ponta. Mas o corpo mesmo do recado vem em seguida. A estrofe seguinte, marcada por uma incrível atmosfera musical, é um desrecalque satânico daquilo que não aguentamos. Só podemos almejar. A nós, só resta o desejo, porque o Absoluto, essa estrela azul que é a substância mesma da coisa, só tem textura no fracasso. A mensagem de Meu Recado é a de desrecalcar a banda podre do real para sublimarmos sua falta de Absoluto. O que o torna vivo é porque o queremos, e é somente isso que nos é permitido. O dístico final da canção – “Cada fio de cabelo que cair / É mais um corte no ego do por vir” – é a imagem mais concentrada de todos os Experimentos, um momento raro no universo da canção em que a pura letra tem peso estético autônomo. É nesse ponto do percurso que a personagem apresenta a consciência de que o Absoluto é só o desejo. A passagem das Horas consome cada ponta de nosso amor-próprio porque a iminência do fracasso é inevitável. Já que o Absoluto é somente objeto de eterno desejo, não há como evitá-lo. Cada fio de cabelo que cai, cada sinal da chegada do Abismo, é só mais um corte na ponte que nos leva a esse objeto de desejo. Quão mais distante, só resta isso mesmo: o desejo. Mas é nessa consciência do fracasso que a personagem encontra um ponto de transcendência. O sublime fracasso é aquele que nos faz viver em um ciclo somente, o da Vida, sem criar ficções que nos arrasem e nos levem a mimetizar esse ciclo, caindo não só no abismo da angústia, mas no da agonia. Saber que é só mais um corte é um saber difícil.

Mas é possível o Amor em tempos de meme?

§- A rápida (como um meme) e última canção do Experimento – como já disse, encaro Desabafo como um epílogo, e não como uma canção – retorna, agora com maior assento na passionalização, a mesma técnica apresentada em canções anteriores: a do desarranjo irônico entre letra e tensão melódica. Levando em nota o movimento da canção anterior, nosso senso comum esperaria uma superação da visão do Amor como elemento de recuperação ou emulação do Absoluto. Contudo ele, o Amor, mesmo que com figura de objeto de desejo puramente, retorna como tema, afinal, a personagem é por excelência um sujeito moderno, portanto hesitante, perdido e carente de Sentido. O Amor, ou melhor, o querer-amar, é desrecalcado e retorna como ausência. No aspecto mais musical, a canção emula uma típica balada para voz e piano, gênero cujo tópico do sentimentalismo – aqui não num mal sentido – é uma constante quase obrigatória. À texturização da melodia, se acresce uma marcação percussiva que compete para formar o crescendum sublimizante também típico do gênero emulado. Não obstante, tal ou qual em outras canção do trabalho, a carga prosaica do texto zomba do sublime, só que dessa vez, possivelmente pelo ritmo desacelerado e largo, o sentimento disfórico prevalece sobre o eufórico. Nessa dialética do riso, a síntese é a tristeza. Mas de onde ela vem, qual sua causa primeira? Em Amor em tempos de meme, são as relações sociais quem a provocam. Mais especificamente, as modernas formas de comunicação. Se o Amor demanda uma comunicação substancial, como ele seria possível em um contexto onde impera a comunicação rápida, unilateral, tóxica e, por que não dizer, fascista, ou seja – um meme?

§- Da personagem construída em nosso imaginário pelos Experimentos em seu percurso textual, podemos extrair literalmente uma personagem de obra de ficção, com corpo de caracteres suficientes para sustentar-se em uma narrativa. Com isso arrisco dizer, para finalizar, que os Experimentos têm um pé na poesia lírica e outro na dramática, mas principalmente na lírica. Desta porque centrada no Eu, daquela por ensaiar uma interação entre essa personagem e outras vozes, ora a do próprio ouvinte, ora a voz de outra(s) personagem(s) inscrita(s) no texto, recuperada(s) por pressuposição lógico-semântica. É justamente este o ponto central que perpassa os Experimentos, que movimenta seu percurso e motiva seu trabalho poético: como é possível o Eu e o Outro? Como é possível a comunicação e o Sentido, se não consigo entender a mim e o outro, que são fonte de todo o sentido? Eis a principal pergunta levantada pelos dois Eps da Zona Nobre do Fundo do Poço. Sua poética é iminentemente lírica. Nessa seara, o concelho de Roland Barthes, em uma de suas últimas aulas, é mais do que válido: “não recalcar o Sujeito”. De desrecalque Martinez entende bem e há de entender ainda melhor, afinal, espero vir desses Experimentos outros recados.

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Autor: Vasil

Estudante de Letras, fascinado por crítica cultural, leitor de coisas velhas e mofadas, péssimo em resumir-se.

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