O PROFESSOR DE LATIM [CONTO]:

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§- Às sete horas não havia ainda nada para se escrever no quadro. O branco da manhã era uma respiração para Augusto. Não era sempre que o docente chegava assim, tão cedo da manhã, para passar talvez três quartos de hora olhando paro o brilho do fino laminado melamínico. As janelas em fita, largas e atravessadas de ferro preto, eram trespassadas pelo sol, que largava seus raios no quadro, pintando de um laranja vivo a lousa trapezoidal. E Augusto ficava lá. Mirando o sol por tabela, como quem vê um quadro impressionista em um museu.

§- A sala retangular, composta de concreto armado e algum vidro temperado – a forma seguindo a função –, intrigava fundo a mente clássica de Augusto. Não foi coincidência ser professor de latim e ter recebido esse nome. Seu pai, que era padre na diocese do estado vizinho, desde seus primeiros anos de escola o treinava com pulso católico na língua de Cícero e São Jerônimo. Aos doze anos, recitava as cinco declinações quando tinha dificuldades para dormir; aos quinze, lia Virgílio, Horácio e Quintiliano como quem lesse autoajuda; aos vinte e um terminou seu doutorado e um ano depois foi aprovado como professor no Ministério da Língua.

§- Augusto levantou-se com cerimônia. A sala ainda estava vazia, mas em breve não mais. Pegou o pincel no bolso da camisa – seria de seda? – e escreveu breves sentenças. O cabelo escovado para a nuca, o semblante firme e sereno, a risca de giz e o sapato de couro sintético: talvez Augusto trocaria tudo por uma toga de algodão e uma coroa de folhas. Não, não precisa ser de louro. Bastavam as folhas. Não pôde deixar de rir-se. Após arrumar os papéis sobre a mesa, ligou o projetor e revisou os slides e o plano de aula. Os primeiros alunos e alunas já vinham chegando. Todos comentavam entre si – além de assuntos diversos – sobre hoje ser o dia em que não se pode nem fumar um cigarro e tomar um café antes das oito porque esse neurótico resolveu bater ponto. Sim, ele ouvia. Sempre. E brincava. Tempus est iocundum. Suas aulas eram sempre lotadas. Mesmo os alunos mais desinteressados no curso apresentavam seu interesse nômade. Pessoas tinham dificuldade em encontrar espaço com folga na grande poltrona em U que servia de assento aos estudantes. No espaço da lousa, havia uma plataforma para o professor ministrar a aula, mas para escrever Augusto a utilizava. Preferia circular dentro da vogal, andando entre seu povo. Imitatio Christi, nobre figura.

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§- Ao término das quase duas horas de aula, todas e todos saíam com vocabulário novo, fórmulas sintáticas e às vezes até versos inteiros em língua latina, sem a demanda de demasiado esforço cognitivo. Dolce et utile, era como tornava o que mostrava. Ao fim de seu turno de trabalho, no café – sozinho, porque não tinha amigos no departamento, só conhecidos –, Jasmim veio cumprimentá-lo e solicitar os materiais que havia pedido. Era sua melhor aluna. Já foi assaltado pela vontade de chamá-la para jantar, uma vez, vontade essa que logo castrou. Além de antiético, Augusto tinha uma promessa. Jurou por sangue que se um dia ele fosse membro da Academia Internacional de Línguas – como o maior e mais jovem latinista do mundo – jamais se casaria, sequer pecaria contra a carne. Imitatio Christi. Á, e o cabelo macio, volumoso e loiro feito um raio de sol penetrando numa onda do mar? O corpo delicado, e que todos dizem fêmeo, como não vê-lo, mesmo de olhos fechados? Copiosas quantidades de saliva acumulavam-se na boca de Augusto quando via Jasmim, processo que disfarçava para ela e para si vertendo muito café. Não passou cinco minutos na mesa, mas para ele foram quinze. A transferência, Augusto, a transferência, repetiu para si. Logo, sua mente foi povoada por uma pintura a óleo da Batalha do Ácio.

§- Nos dias em que chegava cedo no trabalho, também jantava cedo ao chegar em casa. Arrumava a sala de estar depois da ceia. Longo apartamento. Nos corredores, estantes. Repletas de livros de Didática, Comunicação Social, Línguas e Linguística. Todo fim de semestre, dispunha as cadeiras da sala em u, espalhava papéis na mesa de centro, ajustava uma lousa portátil e ligava seu computador. Era hora de preparar e ensaiar as aulas do próximo. Contudo, dessa vez, no meio de sua marcha, pegou-se pensando em Jasmim. Por quartos de milésimo chegou a vislumbrar sua silhueta na sala. Á, o sol! mas era de noite… Resolveu parar. Tomar uma água. Sim, dar um tempo, talvez terminasse amanhã. Nem precisava arrumar a sala. Teve então a ideia de se divertir um pouco. Gostava de ditar as declinações em voz alta às vezes, com pino na postura, como um professor muito velho. Pôs a mão na cintura, usou uma régua para simular uma vara de marmelo e começou, com cada fonema carregado de concreto:

– “Rosa… Rosae… Rosa… Rosam… Rosae…”

Pensou renitentemente em Jasmim. Á, rosa doirada, era um suspiro, mas depois pensou que se pode ser ridículo às vezes, ou melhor não, então tentou passar para a próxima declinação, mas não conseguiu. Seu corpo inteiro se encheu de sangue. Era tudo muito quente.Todas as desinências são pelos, pensou então, e sua boca transbordou saliva. Chutou as cadeiras da sala. Com duro e certeiro golpe, quebrou o vidro da mesa. Mas para que isso, meu deus, se não sou mais cristão, ele se disse. Jamais ser julgado por pensamentos. Por atos sim, esses filhos da carne. As ideias são puras, não querem o mal. A ação, filha da matéria, é, por definição, equivocada. Jamais em atos, somente ideias. Então Augusto não conseguiu mais recalcar a Imagem. Sim, pode vir, eu não tenho medo de você. E continuou:

– “Dominus… Domine… Domini…”

E já não era mais Jasmim somente, mas também Ângelo. Seu aluno! Um homem! Á, mas já não ligava, e cada desinência era alguém a mais a se juntar em sua orgia. De repente, quando já não cabiam mais corpos sobre o seu, sentiu seu órgão brochar. Murchar feito rosa sem água. Sentou na poltrona e meditou. Meu deus, por que me abandonaste?! Vendo as cadeiras vazias, espalhadas, ajustou-as em fila, formando um retângulo. E recomeçou. Não vinha mais imagem alguma em sua mente, mesmo quando solicitava. Continuava tentando muito, sem muito êxito, até que, de repente, sonhou uma letra. Talvez tenha quebrado minha imaginação, ele pensou. Á, mas se apossou de um desejo mais forte, tão ou mais incontrolável do que qualquer um anterior a esse. Recitava com mais firmeza e o sangue já lhe vinha. Sua imaginação se reduzia ao branco e o preto. Puras letras, é o que desenhava na mente. Batia com a régua na lousa. Pausadamente. Dierum. Diebus. Dies. Ao fim, Augusto explodiu em um gozo tão inconcebível que jamais voltou a dar aula.

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JUSTIÇA E CATARSE: DUAS DEFINIÇÕES

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§- Sempre que sofremos alguma sorte de dano, seja provocado por coisa, por pessoas, ou por pessoas manejando coisas, inevitavelmente somos tomados por um sentimento de desajuste. “As coisas não deveriam ser assim. Há algo fora de seu lugar”. Imaginemos a cena típica do Chaves acertando o Quico, que grita pela intervenção de Dona Florinda, que por sua vez acerta o Seu Madruga. Nós rimos, mas um riso meio desajustado. Conheço pessoas que não conseguem assistir ao programa pela repetição desse esquema narrativo. Nesse caso, o desajuste é maior do que o riso (porque, sim, eu creio que ele persiste). O que entra em jogo aqui é o desarranjo como elemento constituinte da Injustiça. Se nenhum empirismo absolutista guia nosso processo de pensamento, então fica fácil deduzir, a partir disso, que o arranjo, o ajuste seria o elemento constituinte de seu oposto: a Justiça.

Uma das primeiras pessoas a propor uma teoria de peso sobre esse tema foi Platão. Antes do ateniense, claro, o tema era ponto central de debate entre os gregos, mas Platão foi o primeiro a propor uma explicação sofisticada e fora do senso comum. Em seu clássico A República, Sócrates debate com outros interlocutores sobre a natureza da Justiça, e para demonstrar que ela existe em si, contra a tese de Trasímaco, segundo o qual a Justiça é fruto do arbítrio, propõe um exercício mental de imaginar uma “cidade perfeita”, onde cada parte está em seu lugar. Nesse mesmo livro, Platão apresenta sua famosa Teoria das Formas: o mundo sensível é “cópia” do mundo das formas. Uma cidade justa, portanto, seria uma cidade ajustada às formas, àquilo que há de mais per-feito (ou seja, algo feito por completo, em sua totalidade).

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§- Voltando ao senso comum, mas com a mesma sofisticação, Aristóteles propõe uma nova visão sobre o assunto. Para ele, Justiça não é algo de ordem ontológica como para Platão – um ser mais real que a própria realidade sensível –, mas algo do domínio da ação, algo que diz respeito intrinsecamente à virtude e à política (à vida na polis), portanto, algo ensinável, como uma arte (ou, palavra grega, uma técnica). Justiça, num sentido mais geral, seria um como sinônimo de virtude. Ora, mas o que é virtude? O ponto médio, o termo de ouro entre dois extremos. Coragem não é o oposto de covardia, dentro desse raciocínio, mas o “ponto de equilíbrio” entre aquela e seu verdadeiro oposto: a temeridade. A virtude é como o ponto crítico de uma função do segundo grau com o a maior que zero: o que vem antes ou depois daqui é queda. E quanto a Justiça enquanto espécie, àquela que se relaciona mais intimamente com a esfera política, e menos com a ética? Aristóteles divide-a ainda em dois tipos: a justiça distributiva e a retributiva. A primeira, grosso modo, diz respeito à distribuição dos bens na polis, enquanto a segunda concerne aos reparos causados por perdas e danos de qualquer ordem.

§- O que permanece dentro desse quadro, o que percorre as duas narrativas sobre justiça, é a noção de equalização. Justiça, por fim, seria dar a cada um o que lhe é devido, equalizando duas ou mais partes que estão desequalizadas. Quando, acusado de roubo, um indivíduo é preso e estigmatizado na testa por outros dois, como no caso que aconteceu recentemente, o que temos não é justiça, mas catarse, puramente. Uma catarse macabra. Esse termo também ganhou uso na cultura ocidental a partir de Aristóteles. Trata-se de uma metáfora para descrever o efeito de purgação – como costumam traduzi-lo do grego – provocado no espectador de um poema trágico. Creio que podemos, como muitos fazem, estender o sentido dessa metáfora do domínio da arte para o domínio da vida. O que o tatuador e seu colega queriam não era justiça, e evito até usar a palavra justiçamento. A desproporção entre o suposto dano (roubo sem violência) e a pena (tortura e estigmatização), assim como o próprio texto da tatuagem, me fizeram pensar como em casos como esse o ego coletivo opera por deslocamento. Não é contra o ladrão armado, político ou o empresário, tipos a quem tanto nutri ódio, que a multidão se rebela. Como o filho que chuta o cachorro depois de receber uma bronca dos pais, e com a mesma moção covarde e infantil, o cidadão brasileiro médio desloca o tipo do Marginal Desarmado, senão somente por fraqueza psíquica, também por turvação ideológica, toda a carga de violência que recebe e reproduz. Sou ladrão e vacilão: o que o uso dessa estrutura coordenada e a seleção dos substantivos revela é que, no fundo dessa forma, o maior erro não foi o ser ladrão, mas vacilão. É o velho sistema de valores do brasileiro médio, com o lado podre do seu jeitinho, que subjaz em enunciados como esse. O truque mental que esse tipo sofre resulta na impossibilidade de pensar a violência por causas. Todas as declarações sobre fenômeno são reduzidas então a um absoluto moral. É a droga e a corrupção que estão acabando esse país”, dizem, enquanto as relações de dominação, os limites desse modelo de economia política e a falência das instituições permanecem intocadas, sequer mencionadas.

§- É curioso que na superfície esse discurso tenha a moral como conceito coordenador, como absoluto, mas, no nível profundo, seja completamente desprovido de fundo moral, de um edifício ético erguido no raciocínio, ou mesmo do mais elementar: imaginação moral. Eis uma coisa que devíamos pensar e debater mais a respeito se não quisermos marchar ainda mais para a estupidez e a barbárie.