JUSTIÇA E CATARSE: DUAS DEFINIÇÕES

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§- Sempre que sofremos alguma sorte de dano, seja provocado por coisa, por pessoas, ou por pessoas manejando coisas, inevitavelmente somos tomados por um sentimento de desajuste. “As coisas não deveriam ser assim. Há algo fora de seu lugar”. Imaginemos a cena típica do Chaves acertando o Quico, que grita pela intervenção de Dona Florinda, que por sua vez acerta o Seu Madruga. Nós rimos, mas um riso meio desajustado. Conheço pessoas que não conseguem assistir ao programa pela repetição desse esquema narrativo. Nesse caso, o desajuste é maior do que o riso (porque, sim, eu creio que ele persiste). O que entra em jogo aqui é o desarranjo como elemento constituinte da Injustiça. Se nenhum empirismo absolutista guia nosso processo de pensamento, então fica fácil deduzir, a partir disso, que o arranjo, o ajuste seria o elemento constituinte de seu oposto: a Justiça.

Uma das primeiras pessoas a propor uma teoria de peso sobre esse tema foi Platão. Antes do ateniense, claro, o tema era ponto central de debate entre os gregos, mas Platão foi o primeiro a propor uma explicação sofisticada e fora do senso comum. Em seu clássico A República, Sócrates debate com outros interlocutores sobre a natureza da Justiça, e para demonstrar que ela existe em si, contra a tese de Trasímaco, segundo o qual a Justiça é fruto do arbítrio, propõe um exercício mental de imaginar uma “cidade perfeita”, onde cada parte está em seu lugar. Nesse mesmo livro, Platão apresenta sua famosa Teoria das Formas: o mundo sensível é “cópia” do mundo das formas. Uma cidade justa, portanto, seria uma cidade ajustada às formas, àquilo que há de mais per-feito (ou seja, algo feito por completo, em sua totalidade).

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§- Voltando ao senso comum, mas com a mesma sofisticação, Aristóteles propõe uma nova visão sobre o assunto. Para ele, Justiça não é algo de ordem ontológica como para Platão – um ser mais real que a própria realidade sensível –, mas algo do domínio da ação, algo que diz respeito intrinsecamente à virtude e à política (à vida na polis), portanto, algo ensinável, como uma arte (ou, palavra grega, uma técnica). Justiça, num sentido mais geral, seria um como sinônimo de virtude. Ora, mas o que é virtude? O ponto médio, o termo de ouro entre dois extremos. Coragem não é o oposto de covardia, dentro desse raciocínio, mas o “ponto de equilíbrio” entre aquela e seu verdadeiro oposto: a temeridade. A virtude é como o ponto crítico de uma função do segundo grau com o a maior que zero: o que vem antes ou depois daqui é queda. E quanto a Justiça enquanto espécie, àquela que se relaciona mais intimamente com a esfera política, e menos com a ética? Aristóteles divide-a ainda em dois tipos: a justiça distributiva e a retributiva. A primeira, grosso modo, diz respeito à distribuição dos bens na polis, enquanto a segunda concerne aos reparos causados por perdas e danos de qualquer ordem.

§- O que permanece dentro desse quadro, o que percorre as duas narrativas sobre justiça, é a noção de equalização. Justiça, por fim, seria dar a cada um o que lhe é devido, equalizando duas ou mais partes que estão desequalizadas. Quando, acusado de roubo, um indivíduo é preso e estigmatizado na testa por outros dois, como no caso que aconteceu recentemente, o que temos não é justiça, mas catarse, puramente. Uma catarse macabra. Esse termo também ganhou uso na cultura ocidental a partir de Aristóteles. Trata-se de uma metáfora para descrever o efeito de purgação – como costumam traduzi-lo do grego – provocado no espectador de um poema trágico. Creio que podemos, como muitos fazem, estender o sentido dessa metáfora do domínio da arte para o domínio da vida. O que o tatuador e seu colega queriam não era justiça, e evito até usar a palavra justiçamento. A desproporção entre o suposto dano (roubo sem violência) e a pena (tortura e estigmatização), assim como o próprio texto da tatuagem, me fizeram pensar como em casos como esse o ego coletivo opera por deslocamento. Não é contra o ladrão armado, político ou o empresário, tipos a quem tanto nutri ódio, que a multidão se rebela. Como o filho que chuta o cachorro depois de receber uma bronca dos pais, e com a mesma moção covarde e infantil, o cidadão brasileiro médio desloca o tipo do Marginal Desarmado, senão somente por fraqueza psíquica, também por turvação ideológica, toda a carga de violência que recebe e reproduz. Sou ladrão e vacilão: o que o uso dessa estrutura coordenada e a seleção dos substantivos revela é que, no fundo dessa forma, o maior erro não foi o ser ladrão, mas vacilão. É o velho sistema de valores do brasileiro médio, com o lado podre do seu jeitinho, que subjaz em enunciados como esse. O truque mental que esse tipo sofre resulta na impossibilidade de pensar a violência por causas. Todas as declarações sobre fenômeno são reduzidas então a um absoluto moral. É a droga e a corrupção que estão acabando esse país”, dizem, enquanto as relações de dominação, os limites desse modelo de economia política e a falência das instituições permanecem intocadas, sequer mencionadas.

§- É curioso que na superfície esse discurso tenha a moral como conceito coordenador, como absoluto, mas, no nível profundo, seja completamente desprovido de fundo moral, de um edifício ético erguido no raciocínio, ou mesmo do mais elementar: imaginação moral. Eis uma coisa que devíamos pensar e debater mais a respeito se não quisermos marchar ainda mais para a estupidez e a barbárie.

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Autor: Vasil

Estudante de Letras, fascinado por crítica cultural, leitor de coisas velhas e mofadas, péssimo em resumir-se.

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