O PROFESSOR DE LATIM [CONTO]:

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§- Às sete horas não havia ainda nada para se escrever no quadro. O branco da manhã era uma respiração para Augusto. Não era sempre que o docente chegava assim, tão cedo da manhã, para passar talvez três quartos de hora olhando paro o brilho do fino laminado melamínico. As janelas em fita, largas e atravessadas de ferro preto, eram trespassadas pelo sol, que largava seus raios no quadro, pintando de um laranja vivo a lousa trapezoidal. E Augusto ficava lá. Mirando o sol por tabela, como quem vê um quadro impressionista em um museu.

§- A sala retangular, composta de concreto armado e algum vidro temperado – a forma seguindo a função –, intrigava fundo a mente clássica de Augusto. Não foi coincidência ser professor de latim e ter recebido esse nome. Seu pai, que era padre na diocese do estado vizinho, desde seus primeiros anos de escola o treinava com pulso católico na língua de Cícero e São Jerônimo. Aos doze anos, recitava as cinco declinações quando tinha dificuldades para dormir; aos quinze, lia Virgílio, Horácio e Quintiliano como quem lesse autoajuda; aos vinte e um terminou seu doutorado e um ano depois foi aprovado como professor no Ministério da Língua.

§- Augusto levantou-se com cerimônia. A sala ainda estava vazia, mas em breve não mais. Pegou o pincel no bolso da camisa – seria de seda? – e escreveu breves sentenças. O cabelo escovado para a nuca, o semblante firme e sereno, a risca de giz e o sapato de couro sintético: talvez Augusto trocaria tudo por uma toga de algodão e uma coroa de folhas. Não, não precisa ser de louro. Bastavam as folhas. Não pôde deixar de rir-se. Após arrumar os papéis sobre a mesa, ligou o projetor e revisou os slides e o plano de aula. Os primeiros alunos e alunas já vinham chegando. Todos comentavam entre si – além de assuntos diversos – sobre hoje ser o dia em que não se pode nem fumar um cigarro e tomar um café antes das oito porque esse neurótico resolveu bater ponto. Sim, ele ouvia. Sempre. E brincava. Tempus est iocundum. Suas aulas eram sempre lotadas. Mesmo os alunos mais desinteressados no curso apresentavam seu interesse nômade. Pessoas tinham dificuldade em encontrar espaço com folga na grande poltrona em U que servia de assento aos estudantes. No espaço da lousa, havia uma plataforma para o professor ministrar a aula, mas para escrever Augusto a utilizava. Preferia circular dentro da vogal, andando entre seu povo. Imitatio Christi, nobre figura.

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§- Ao término das quase duas horas de aula, todas e todos saíam com vocabulário novo, fórmulas sintáticas e às vezes até versos inteiros em língua latina, sem a demanda de demasiado esforço cognitivo. Dolce et utile, era como tornava o que mostrava. Ao fim de seu turno de trabalho, no café – sozinho, porque não tinha amigos no departamento, só conhecidos –, Jasmim veio cumprimentá-lo e solicitar os materiais que havia pedido. Era sua melhor aluna. Já foi assaltado pela vontade de chamá-la para jantar, uma vez, vontade essa que logo castrou. Além de antiético, Augusto tinha uma promessa. Jurou por sangue que se um dia ele fosse membro da Academia Internacional de Línguas – como o maior e mais jovem latinista do mundo – jamais se casaria, sequer pecaria contra a carne. Imitatio Christi. Á, e o cabelo macio, volumoso e loiro feito um raio de sol penetrando numa onda do mar? O corpo delicado, e que todos dizem fêmeo, como não vê-lo, mesmo de olhos fechados? Copiosas quantidades de saliva acumulavam-se na boca de Augusto quando via Jasmim, processo que disfarçava para ela e para si vertendo muito café. Não passou cinco minutos na mesa, mas para ele foram quinze. A transferência, Augusto, a transferência, repetiu para si. Logo, sua mente foi povoada por uma pintura a óleo da Batalha do Ácio.

§- Nos dias em que chegava cedo no trabalho, também jantava cedo ao chegar em casa. Arrumava a sala de estar depois da ceia. Longo apartamento. Nos corredores, estantes. Repletas de livros de Didática, Comunicação Social, Línguas e Linguística. Todo fim de semestre, dispunha as cadeiras da sala em u, espalhava papéis na mesa de centro, ajustava uma lousa portátil e ligava seu computador. Era hora de preparar e ensaiar as aulas do próximo. Contudo, dessa vez, no meio de sua marcha, pegou-se pensando em Jasmim. Por quartos de milésimo chegou a vislumbrar sua silhueta na sala. Á, o sol! mas era de noite… Resolveu parar. Tomar uma água. Sim, dar um tempo, talvez terminasse amanhã. Nem precisava arrumar a sala. Teve então a ideia de se divertir um pouco. Gostava de ditar as declinações em voz alta às vezes, com pino na postura, como um professor muito velho. Pôs a mão na cintura, usou uma régua para simular uma vara de marmelo e começou, com cada fonema carregado de concreto:

– “Rosa… Rosae… Rosa… Rosam… Rosae…”

Pensou renitentemente em Jasmim. Á, rosa doirada, era um suspiro, mas depois pensou que se pode ser ridículo às vezes, ou melhor não, então tentou passar para a próxima declinação, mas não conseguiu. Seu corpo inteiro se encheu de sangue. Era tudo muito quente.Todas as desinências são pelos, pensou então, e sua boca transbordou saliva. Chutou as cadeiras da sala. Com duro e certeiro golpe, quebrou o vidro da mesa. Mas para que isso, meu deus, se não sou mais cristão, ele se disse. Jamais ser julgado por pensamentos. Por atos sim, esses filhos da carne. As ideias são puras, não querem o mal. A ação, filha da matéria, é, por definição, equivocada. Jamais em atos, somente ideias. Então Augusto não conseguiu mais recalcar a Imagem. Sim, pode vir, eu não tenho medo de você. E continuou:

– “Dominus… Domine… Domini…”

E já não era mais Jasmim somente, mas também Ângelo. Seu aluno! Um homem! Á, mas já não ligava, e cada desinência era alguém a mais a se juntar em sua orgia. De repente, quando já não cabiam mais corpos sobre o seu, sentiu seu órgão brochar. Murchar feito rosa sem água. Sentou na poltrona e meditou. Meu deus, por que me abandonaste?! Vendo as cadeiras vazias, espalhadas, ajustou-as em fila, formando um retângulo. E recomeçou. Não vinha mais imagem alguma em sua mente, mesmo quando solicitava. Continuava tentando muito, sem muito êxito, até que, de repente, sonhou uma letra. Talvez tenha quebrado minha imaginação, ele pensou. Á, mas se apossou de um desejo mais forte, tão ou mais incontrolável do que qualquer um anterior a esse. Recitava com mais firmeza e o sangue já lhe vinha. Sua imaginação se reduzia ao branco e o preto. Puras letras, é o que desenhava na mente. Batia com a régua na lousa. Pausadamente. Dierum. Diebus. Dies. Ao fim, Augusto explodiu em um gozo tão inconcebível que jamais voltou a dar aula.

JUSTIÇA E CATARSE: DUAS DEFINIÇÕES

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§- Sempre que sofremos alguma sorte de dano, seja provocado por coisa, por pessoas, ou por pessoas manejando coisas, inevitavelmente somos tomados por um sentimento de desajuste. “As coisas não deveriam ser assim. Há algo fora de seu lugar”. Imaginemos a cena típica do Chaves acertando o Quico, que grita pela intervenção de Dona Florinda, que por sua vez acerta o Seu Madruga. Nós rimos, mas um riso meio desajustado. Conheço pessoas que não conseguem assistir ao programa pela repetição desse esquema narrativo. Nesse caso, o desajuste é maior do que o riso (porque, sim, eu creio que ele persiste). O que entra em jogo aqui é o desarranjo como elemento constituinte da Injustiça. Se nenhum empirismo absolutista guia nosso processo de pensamento, então fica fácil deduzir, a partir disso, que o arranjo, o ajuste seria o elemento constituinte de seu oposto: a Justiça.

Uma das primeiras pessoas a propor uma teoria de peso sobre esse tema foi Platão. Antes do ateniense, claro, o tema era ponto central de debate entre os gregos, mas Platão foi o primeiro a propor uma explicação sofisticada e fora do senso comum. Em seu clássico A República, Sócrates debate com outros interlocutores sobre a natureza da Justiça, e para demonstrar que ela existe em si, contra a tese de Trasímaco, segundo o qual a Justiça é fruto do arbítrio, propõe um exercício mental de imaginar uma “cidade perfeita”, onde cada parte está em seu lugar. Nesse mesmo livro, Platão apresenta sua famosa Teoria das Formas: o mundo sensível é “cópia” do mundo das formas. Uma cidade justa, portanto, seria uma cidade ajustada às formas, àquilo que há de mais per-feito (ou seja, algo feito por completo, em sua totalidade).

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§- Voltando ao senso comum, mas com a mesma sofisticação, Aristóteles propõe uma nova visão sobre o assunto. Para ele, Justiça não é algo de ordem ontológica como para Platão – um ser mais real que a própria realidade sensível –, mas algo do domínio da ação, algo que diz respeito intrinsecamente à virtude e à política (à vida na polis), portanto, algo ensinável, como uma arte (ou, palavra grega, uma técnica). Justiça, num sentido mais geral, seria um como sinônimo de virtude. Ora, mas o que é virtude? O ponto médio, o termo de ouro entre dois extremos. Coragem não é o oposto de covardia, dentro desse raciocínio, mas o “ponto de equilíbrio” entre aquela e seu verdadeiro oposto: a temeridade. A virtude é como o ponto crítico de uma função do segundo grau com o a maior que zero: o que vem antes ou depois daqui é queda. E quanto a Justiça enquanto espécie, àquela que se relaciona mais intimamente com a esfera política, e menos com a ética? Aristóteles divide-a ainda em dois tipos: a justiça distributiva e a retributiva. A primeira, grosso modo, diz respeito à distribuição dos bens na polis, enquanto a segunda concerne aos reparos causados por perdas e danos de qualquer ordem.

§- O que permanece dentro desse quadro, o que percorre as duas narrativas sobre justiça, é a noção de equalização. Justiça, por fim, seria dar a cada um o que lhe é devido, equalizando duas ou mais partes que estão desequalizadas. Quando, acusado de roubo, um indivíduo é preso e estigmatizado na testa por outros dois, como no caso que aconteceu recentemente, o que temos não é justiça, mas catarse, puramente. Uma catarse macabra. Esse termo também ganhou uso na cultura ocidental a partir de Aristóteles. Trata-se de uma metáfora para descrever o efeito de purgação – como costumam traduzi-lo do grego – provocado no espectador de um poema trágico. Creio que podemos, como muitos fazem, estender o sentido dessa metáfora do domínio da arte para o domínio da vida. O que o tatuador e seu colega queriam não era justiça, e evito até usar a palavra justiçamento. A desproporção entre o suposto dano (roubo sem violência) e a pena (tortura e estigmatização), assim como o próprio texto da tatuagem, me fizeram pensar como em casos como esse o ego coletivo opera por deslocamento. Não é contra o ladrão armado, político ou o empresário, tipos a quem tanto nutri ódio, que a multidão se rebela. Como o filho que chuta o cachorro depois de receber uma bronca dos pais, e com a mesma moção covarde e infantil, o cidadão brasileiro médio desloca o tipo do Marginal Desarmado, senão somente por fraqueza psíquica, também por turvação ideológica, toda a carga de violência que recebe e reproduz. Sou ladrão e vacilão: o que o uso dessa estrutura coordenada e a seleção dos substantivos revela é que, no fundo dessa forma, o maior erro não foi o ser ladrão, mas vacilão. É o velho sistema de valores do brasileiro médio, com o lado podre do seu jeitinho, que subjaz em enunciados como esse. O truque mental que esse tipo sofre resulta na impossibilidade de pensar a violência por causas. Todas as declarações sobre fenômeno são reduzidas então a um absoluto moral. É a droga e a corrupção que estão acabando esse país”, dizem, enquanto as relações de dominação, os limites desse modelo de economia política e a falência das instituições permanecem intocadas, sequer mencionadas.

§- É curioso que na superfície esse discurso tenha a moral como conceito coordenador, como absoluto, mas, no nível profundo, seja completamente desprovido de fundo moral, de um edifício ético erguido no raciocínio, ou mesmo do mais elementar: imaginação moral. Eis uma coisa que devíamos pensar e debater mais a respeito se não quisermos marchar ainda mais para a estupidez e a barbárie.

O Sublime Fracasso: Zona Nobre do Fundo do Poço

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A.S. Neste texto, tratarei sobre os Experimentos Existencialistas vol. I e II, trabalho do projeto musical chamado Zona Nobre do Fundo do Poço, cujo realizador é José Ramiro Martinez. Para compreendê-lo é necessário ouvi-los integralmente. Ouça pelo Banana Records ou pelo Soundcloud da ZNFP abaixo:

Vol. I pelo Banana

Vol. II pelo Banana

 


O sentido da modernidade pode ser fudido

§- Um dos retratos mais comuns da Modernidade é o da degeneração. Não é para menos, também. Quando pensamos no sentido das coisas, atualmente, somos por vezes levados a esta conclusão: a de que ele é fudido, como bem diz o trabalho musical que pretendo analisar aqui para tomá-lo como base para alguma reflexão – Ser-aí-fudido: eis o sentido do moderno. Mas não penso, como os adeptos do Romantismo, que isso se deva à quebra com uma ordem natural que deixamos de mirar, necessariamente, mas a uma tomada de consciência. Nós percebemos, com o espírito e com o corpo, que aquilo que tomávamos como Absoluto é, na verdade, relativo e circunstancial.

A Bastilha do Absoluto

§- A antiga sociedade de estamento, a conjunção entre poder temporal e poder espiritual na imaginação coletiva, o encantamento com o mundo imediato, para roubar criativamente uma expressão de Weber, pareciam sustentar uma imagem mesma do casamento entre a ala mais nobre com a mais podre do mundo. Viver, antes da Modernidade, representava ter a visão de um horizonte macio diante desse nosso vale de lágrimas. Contudo, essa estrutura delegava um sentido ao viver. Derrubada a Bastilha – uma Bastilha bem menos física, de tijolo e aço, do que sinapse, imaginação e sopro -, era como estar-se livre para ver o mundo como ele realmente é… fudido. Nós, que éramos prisioneiros desse Falso Deus, passamos a perceber que a vida é livre de sentido quando sua cabeça rolou ao duro golpe da guilhotina. “Deus está morto”, é a famigerada bravata de Zaratustra. Ora, Deus nada mais é que uma metáfora para o Absoluto nesse texto. Nietzsche não fez sociologia da religião ao escrever isso, mas lançou, ao mesmo tempo, um projeto e um diagnóstico. Não vale mais nada, dentro dessa narrativa, olhar com olhos de Deus ou de pássaro, como aquele que tudo , que tudo capta em um só ato de pensar, mas trabalhar com perspectivas. A partir disso não é difícil pensar que o sentido da vida não se descobre, mas se inventa. Alguns prisioneiros, contudo, ao saírem das celas da Bastilha para as praças do mundo, sentiram-se saindo de uma prisão para outra: a prisão do mundo, cujo sentido é… fudido. O que na verdade os afetou e afeta é a carência de Absoluto. Se a vida não tem sentido, não vale a pena inventá-lo, pensam. “Se Deus está morto, tudo é permitido”, inclusive o desespero. Esse aforisma apócrifo, atribuído hora a Dostoiévski, por culpa do Sartre, hora a Nietzsche, por culpa do reducionismo, é o corolário do niilismo entendido em seu sentido estrito. Se o Absoluto nos deixou, estamos todos fudidos. Posso imaginar o Voltaire, trajando toda a pompa neoclássica, percorrendo os escombros da prisão, dentro de outra prisão – a do mundo – acompanhado de Diógenes e sua lanterna, tentando ver melhor se chove mais merda. “O desamparo implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser”. Quando o Sartre disse isso, ele não quis que o desamparo nos paralisasse a ação e o pensar, que também é ação, mas que não podemos contar com ninguém além de nós mesmos para tomarmos nossas decisões. Todavia, há um desamparo que não é somente ético, mas ontológico. Sentimos falta de uma substância, com efeito profundo de real, que nos arraste para o ponto onde todos os pontos estão presentes. Em um mundo sem Deus – e agora uso a palavra no seu sentido mais comum – o amor romântico poderia muito bem suprir essa ausência de realidade-em-máxima-potência, ou, em termos aristotélicos, em máximo ato.

Esqueçam sobre o amor

§- Contudo, como recorrer a essa maldita criança armada e cega, se ela demanda duas subjetividades como sacrifício? E se o querer de uma não mais andar no mesmo passo do querer da outra? Resta-nos recorrer a uma outra ponte para o Absoluto, uma que nos demande nada além de nós mesmos: a Arte. É por meio dela que Ramiro Martinez briga contra o desamparo, que acredito ser também reflexo de um drama interior. Como é típico do artista moderno, cujo pai é Baudelaire, Martinez procura extrair beleza da banda podre da realidade. Assim como o pai francês, o nosso carioca explora e redescobre uma série de técnicas e posturas herdadas do Romantismo Germânico. A principal delas, ah! meus queridos, é a doce e malquista Ironia.

Moro em minha própria casa

Nunca imitei ninguém

E rio de todos os mestres

Que não riem de si também

(Nietzsche)

§- O niilista que não ri de si é algo bem próximo do ressentido. Já o que o faz, mais semelhante ao Seu Madruga que ao Sméagol, consegue ter aquele amor fati, amor ao fado, que o leva a viver um ciclo somente, o da vida, e ter diante de si um abismo menos dolorido. Não entendo amor fati como resignação, mas como um verdadeiro ato de resistência: o de não permitir a força arrasadora do Abismo nos conduzir a imitar a (a)lógica do absurdo. No término das contas, deixa de ser niilista quando gargalha ao sem-sentido do Abismo, porque esse riso tem textura, tem corpo; esse riso é, portanto, ele impossibilita haver o Nada absoluto.

O belo é o riso

§- Mas o que é exatamente a Ironia? Grosso modo, ela ocorre quando se afirma no dito, mas se nega no não dito. Para complementar, podemos dizer, em termos semióticos e furtando a Luiz Fiorin, ser ela um procedimento textual que inverte os functivos veredictórios, transformando negação da enunciação (que implícita) em afirmação no enunciado (que é explícito). A Ironia abala, provoca profunda desordem no estatuto de verdade das coisas, justamente porque ela própria se manifesta na linguagem dessa maneira. “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, assim falou Wittgenstein. Não poderia ter dito melhor. Ora, mas por que não também “os abalos na minha linguagem são os abalos no meu mundo”? A Ironia é poderosa. Puissante. Tão poderosa e empoderada que pode devorar até mesmo aquele que dela faz uso, como bem sugeriu Mallarmé em um de seus poemas mais incríveis:

Do eternal azul a serena ironia

Acaba, bela e indiferente como as flores,

O poeta incapaz que maldiz a poesia

A atravessar deserto estéril de Dolores”.

A serena ironia do Absoluto acaba com o poeta incapaz que maldiz o seu gênio, forçando-o a atravessar as dores da esterilidade criativa”. A ironia é a figura que percorreria o texto de Martinez de ponta a ponta, se não fosse por duas canções, Heráclito e a Dialética e Meu Recado, as quais eu acredito ser as melhores do “disco”. Desabafo entraria naquele rol, mas eu a considero bem mais um epílogo do que como parte constituinte, apesar de integrada, afinal, o Martinez mesmo nos avisa: “Não encare isso como uma canção, encare como um desabafo”. E é curioso, porque assim os Experimentos Existencialistas I e II adquirem uma simetria numérica, além da poética. Três canções no primeiro e três canções e um epílogo no segundo formando sete peças (um número místico, vejam só), com as músicas do extremo utilizando a ironia como procedimento textual ao passo em que as canções do meio usam um ponto de inflexão dramática, proveniente da ironia, como motivo. É quase um silogismo, de uma simetria quase-pitagórica. Percebemos como de fato os dois EPs parecem sido feitos para serem ouvidos juntos, formando um todo estável. Esse aspecto, apesar de semelhar-se à visão de Belo como harmonia e ordem da arte clássica, portanto, supostamente contrastaria com a proposta moderna dos discos, não torna a obra incoerente, senão na verdade, compete para complexificar o trabalho, dando-nos mais um dispositivo para gerar sentido a partir do texto. Essa unidade se reflete também em unidade de voz, ou seja, durante o texto, sentimos que há uma mesma personagem presente em todas as canções dos Experimentos.

Casamento: O Eterno Retorno

§- Na primeira faixa, Casamento, a ironia se manifesta tanto no texto verbal quanto no não verbal. No arranjo, a pontual inserção de um acorde dissonante feito por um piano texturizadíssimo elabora a atmosfera de desarranjo irônico com a crescente passionalização melódico-harmônica. Na borda verbal do texto, é o jogo com o prosaico – maçã, sexo casual – quem opera a ironia. O universo pretensamente puro e sublime do amor romântico é pervertido e sua suposta realização não é nada mais que um eterno retorno do mesmo; “todo dia, toda noite”. O Eterno Retorno nietzschiano tem um fundo cosmológico, além do ético, como nos mostra Scarlett Marton. Ele bebe do atomismo grego para então fazer um salto de sentido que não estava na investigação dos naturalistas pré-socráticos. Assim temos o quadro: não podemos dividir a matéria ao infinito porque senão ela seria infinita em infinitos pontos, portanto, deve haver um ponto em que ela é indivisível; a Sem-Parte. Á-tomos. Por esse modo, temos um número limitado de combinações e infinitas maneiras de fazê-la, assim, as combinações podem se repetir. Esses átomos que constituem seu corpo no momento em que olha para a tela e lê estas palavras já esteve como está agora e estará mais uma vez. A vida é, por natureza da matéria, um eterno retorno. O ponto ético é: como essa ideia lhe parece? Ela te incomoda? Se sim, como agir para viver uma vida que valha a pena ser vivida ad infinitum? Em Casamento, contudo, o amor romântico estabeleceu um ciclo dentro do ciclo. Um eterno retorno dentro do próprio Eterno Retorno que é a vida. A partir desse ponto a Ironia é tão amarga que não resolve o problema, gerando o ponto de inflexão perfeito para a canção seguinte.

Heráclito e a Dialética: O Fluxo

§- “O começo ao fim levou, mas foi feliz anos atrás”. Essa percepção de um tempo diferente do agora agoral, enroscado no prosaico, quando foi feliz, gera a consciência mesma do tempo. É quando esse último verso é lançado que o sujeito enunciador do texto de Martinez passa do hetero ao autodiegético, grosso modo, quando o foco passa da terceira para a primeira pessoa, do Ele pro Eu. Em Heráclito e a Dialética é como se a persona da narrativa fosse lançada para o mais arrebatador e deletério fluxo da dúvida. Ela veio dessa consciência do prazer efêmero, do feliz-anos-atrás, e essa impossibilidade de conceber um prazer perene gera um drama interno tão potente que nem mesmo a serena ironia consegue resolver. Nesse momento uma dúvida hiperbólica, diferente da cartesiana, se instala no discurso. Na primeira estrofe, sujeito, alteridade, realidade objetiva e absoluta é abalada por aquele mesmo fluxo. A passionalização da tessitura melódica gera uma verdadeira tensão, reflexo desse abalo profundo. É interessante como a interpelação constante a um Tu/Você inscrito no texto compete para gerar coesão, progressividade e narrativa no texto. Na canção passada, foi a separação do Sujeito com o Outro, do Eu com o Tu que provocou a percepção do prazer efêmero e da insubstancialidade do que era como tomado como o real em máximo grau, como Absoluto. A leitura que Martinez faz do filósofo naturalista Heráclito é trágica. “Quem sou eu e quem é você se, um dia, o que pensamos podemos não mais pensar?”. Da dialética da physis de Heráclito, Martinez extrai a dialética da psyché. Nessa narrativa, mente e mundo são consubstanciais. O mundo é o que pensamos dele. Percebe-se o existencialismo da Zona Nobre do Fundo do Poço não só no título dos dois trabalhos, mas na poética mesma das canções. Contudo, se o que penso de mim e do mundo é arrebatado pelo devir acerelado, como agarrar sua substância? “O vazio normal / que tu também deve sentir / suponho não há jeitos reais / de suprimir”. Como agarrar sua substância se o Eu e o Outro não estão em conjunção. “E quem diabos é você?” Se não sou Eu, portanto, se não tenho como conceber o Outro, o Diferente, não posso conceber o próprio mundo. Em Heráclito e a Dialética, essa tensão dramática é resolvida pela via estética. O texto de Martinez não é somente a palavra, mas a canção, que é tensão entre melodia e palavra ou, esteticização da fala. A cadência melódica e rítmica, a atmosfera musical, ricamente trabalhada em sua textura, são o ponto de sublimação dessa tensão. É por apresentar em grande ato e potência boa parte daquilo presente na Arte – do tipo mais completo e profundo de arte – que considero essa uma das melhores canções dos Experimentos Existencialistas. Nela há desautomatização dos afetos, um ponto de problematização mais denso, tensão dramática e uma via de sublimação. Todos esses pontos são retomados e reforçados em outro dos pontos mais nobres do fundo do poço, a canção Meu Recado, que, como já disse, também não recorre à ironia como procedimento dominante.

De Copacabana à Polinésia Francesa: “é só uma piada”

§- Não obstante, devo seguir o percusso do personagem. De Copacabana à Polinésia Francesa é um retorno à ironia. É como se a personagem dos Experimentos engolisse o choro e imprimisse a tinta da galhofa na pena da melancolia, tornando ao espetáculo irônico em uma melodia feliz que serve de fundo à piada cruel. A personagem retorna mais cínica das águas do rio heraclitiano. A ironia se torna mais amarga e escancarada, algo bem próximo do deboche. Retornando cético e cínico da reflexão anterior, à personagem só resta o riso. De Copacabana à Polinésia Francesa, de borda a borda do hemisfério sul, na Zona Nobre do Fundo do Poço, só nos resta a piada, un gai savoir . É difícil não perder-se na banda podre do real quando estamos carentes de Absoluto, mas felizes aqueles que guardam a piada. Essa estirpe de gente tem consigo algo bem próximo do saber alegre, do gai saber presente nos trovadores provençais. A personagem é espirituosa – spiritus, em latim, também significava respiração. Segundo uma doutrina que remonta a Anaxímenes de Mileto, o ar era o princípio, a arché, e nossa alma seria igualmente parte desse princípio. Que fazemos quando rimos, senão soltar o ar/espírito impuro do que o real nos faz respirar? Apesar de tudo, a espirituosidade somente faz suportar, mas não nos aqueta a vontade de Absoluto, nossa vontade de Sentido. Impor a alógica do riso à alógica do absurdo nos serve de freio, ou ponto primeiro de inflexão, mas nunca de chegada.

Vosmicê: Le gai adieu

§- A primeira canção do segundo volume dos Experimentos leva a outras consequências muitos procedimentos e temas explorados no EP anterior. A dúvida hiperbólica não-cartesiana agora passa a encontrar um pouco mais de substância nas coisas e não leva a personagem ao arrebatamento do fluxo do devir acelerado. Contudo, a substância que essa reflexão encontra é uma substância negativa. “Será que um dia o mundo vai pensar sobre trabalhar?”, diz o verso. Aqui há uma fina ironia, próxima de uma esperteza machadiana, entre o que se parece afirmar e o que se parece negar. O ritmo alegre da canção poderia arrastar o ouvinte/leitor distraído para o conteúdo retórico daquele enunciado. Poder-se-ia pensar que o que a frase veicula é o conteúdo semântico positivo do trabalho, mas aí entra a cambalhota sagaz do personagem. A estrofe seguinte revela que o que é indagado no enunciado, na verdade, é o conteúdo semântico oposto. A pergunta é “será que alguém já pensou que a vida do trabalho nos arrasta para mais um ciclo dentro do ciclo?” Aqui a personagem já está madura para a alógica do absurdo provocada pela automatização da vida psíquica, para usar um termo do esteta russo Chklovski, cujos efeitos geravam o drama principal da canção de abertura do primeiro Experimento. Em Vosmicê, o personagem do texto já está consciente do problema de enfrentar o Abismo com mais abismo, de submeter-se a uma existência cíclica dentro do próprio ciclo do eterno retorno, e ele tenta alertar sobre os abusos do abismo, usando a ironia novamente como arma discursiva principal, ao tu inscrito no texto, ao enunciatário, ou seja, a Vosmicê. Essa tentativa de reatar o contato com o Outro, de estabelecer uma comunicação substancial – expressão de Eric Voeglin – realmente parece ser umas das principais buscas da personagem. Contudo – e eis um ponto para ser discutido atualmente –, até onde a Ironia, essa senhora do não e imperatriz do sim, pode nos ajudar a estabelecer esse tipo de comunicação? Aparentando já está fora do ciclo duplicado do eterno agora agoural, a personagem parece na verdade fazer uma espécie de exorcismo. É para livrar-se ainda das reminiscências de sua angústia que a personagem provoca o ouvinte. “Vá, e seja feliz se acaso puder, porque eu não consigo”.

O sublime fracasso

§- Meu Recado, na minha opinião, é o grau máximo do disco. O ponto de inflexão desse momento é justamente aquela falta de comunicação substancial, ou seja, a falta de um laço comunicativo que possa de fato construir. Já sabemos como o peso deletério do fluxo é insustentável para o sujeito. Desse modo, faz-se necessário o influxo de outras vozes que não a do Eu. É a partir desse Eu fora do Eu que podemos compreender melhor o que de fato é realidade. Em Meu Recado, nessa esteira, temos um feixe de três vozes na primeira estrofe. Do primeiro verso, não sabemos a pessoa gramatical. A elisão do sujeito da oração elabora o vago e o sugestivo dessa estrofe, apontando mais uma vez o quão próxima a Zona Nobre do Fundo do Poço está da tradição simbolista de um Baudelaire. Não sabemos se é a segunda – você veio […] – ou a terceira pessoa – ele veio […] – que marca esse espaço vazio, tampouco quem são os sujeitos que interagem nos versos seguntes – “Quem lhe acompanha? – Quem não tem pudor”, ou o terceiro sujeito que acompanha o segundo. Mas no nervo dessa polissemia há isto: a conjunção, o encontro entre sujeito e sujeito e a audácia moral – quem não tem pudor – como centro de sentido. Audácia moral significa estar próximo de Satã, não ter pudor, não ter nenhum sentimento de vergonha diante do que costumam considerar sujo. O Satã de Milton não tem pudor. “Better to reign in Hell than serve in Heaven”. Melhor reinar no Inferno que servir no Céu. Que sentimento mais humano! É o retrato dessa banda podre do nosso espírito, hora sublimada pela ironia, hora pela tensão dramática, que percorre os Experimentos de ponta a ponta. Mas o corpo mesmo do recado vem em seguida. A estrofe seguinte, marcada por uma incrível atmosfera musical, é um desrecalque satânico daquilo que não aguentamos. Só podemos almejar. A nós, só resta o desejo, porque o Absoluto, essa estrela azul que é a substância mesma da coisa, só tem textura no fracasso. A mensagem de Meu Recado é a de desrecalcar a banda podre do real para sublimarmos sua falta de Absoluto. O que o torna vivo é porque o queremos, e é somente isso que nos é permitido. O dístico final da canção – “Cada fio de cabelo que cair / É mais um corte no ego do por vir” – é a imagem mais concentrada de todos os Experimentos, um momento raro no universo da canção em que a pura letra tem peso estético autônomo. É nesse ponto do percurso que a personagem apresenta a consciência de que o Absoluto é só o desejo. A passagem das Horas consome cada ponta de nosso amor-próprio porque a iminência do fracasso é inevitável. Já que o Absoluto é somente objeto de eterno desejo, não há como evitá-lo. Cada fio de cabelo que cai, cada sinal da chegada do Abismo, é só mais um corte na ponte que nos leva a esse objeto de desejo. Quão mais distante, só resta isso mesmo: o desejo. Mas é nessa consciência do fracasso que a personagem encontra um ponto de transcendência. O sublime fracasso é aquele que nos faz viver em um ciclo somente, o da Vida, sem criar ficções que nos arrasem e nos levem a mimetizar esse ciclo, caindo não só no abismo da angústia, mas no da agonia. Saber que é só mais um corte é um saber difícil.

Mas é possível o Amor em tempos de meme?

§- A rápida (como um meme) e última canção do Experimento – como já disse, encaro Desabafo como um epílogo, e não como uma canção – retorna, agora com maior assento na passionalização, a mesma técnica apresentada em canções anteriores: a do desarranjo irônico entre letra e tensão melódica. Levando em nota o movimento da canção anterior, nosso senso comum esperaria uma superação da visão do Amor como elemento de recuperação ou emulação do Absoluto. Contudo ele, o Amor, mesmo que com figura de objeto de desejo puramente, retorna como tema, afinal, a personagem é por excelência um sujeito moderno, portanto hesitante, perdido e carente de Sentido. O Amor, ou melhor, o querer-amar, é desrecalcado e retorna como ausência. No aspecto mais musical, a canção emula uma típica balada para voz e piano, gênero cujo tópico do sentimentalismo – aqui não num mal sentido – é uma constante quase obrigatória. À texturização da melodia, se acresce uma marcação percussiva que compete para formar o crescendum sublimizante também típico do gênero emulado. Não obstante, tal ou qual em outras canção do trabalho, a carga prosaica do texto zomba do sublime, só que dessa vez, possivelmente pelo ritmo desacelerado e largo, o sentimento disfórico prevalece sobre o eufórico. Nessa dialética do riso, a síntese é a tristeza. Mas de onde ela vem, qual sua causa primeira? Em Amor em tempos de meme, são as relações sociais quem a provocam. Mais especificamente, as modernas formas de comunicação. Se o Amor demanda uma comunicação substancial, como ele seria possível em um contexto onde impera a comunicação rápida, unilateral, tóxica e, por que não dizer, fascista, ou seja – um meme?

§- Da personagem construída em nosso imaginário pelos Experimentos em seu percurso textual, podemos extrair literalmente uma personagem de obra de ficção, com corpo de caracteres suficientes para sustentar-se em uma narrativa. Com isso arrisco dizer, para finalizar, que os Experimentos têm um pé na poesia lírica e outro na dramática, mas principalmente na lírica. Desta porque centrada no Eu, daquela por ensaiar uma interação entre essa personagem e outras vozes, ora a do próprio ouvinte, ora a voz de outra(s) personagem(s) inscrita(s) no texto, recuperada(s) por pressuposição lógico-semântica. É justamente este o ponto central que perpassa os Experimentos, que movimenta seu percurso e motiva seu trabalho poético: como é possível o Eu e o Outro? Como é possível a comunicação e o Sentido, se não consigo entender a mim e o outro, que são fonte de todo o sentido? Eis a principal pergunta levantada pelos dois Eps da Zona Nobre do Fundo do Poço. Sua poética é iminentemente lírica. Nessa seara, o concelho de Roland Barthes, em uma de suas últimas aulas, é mais do que válido: “não recalcar o Sujeito”. De desrecalque Martinez entende bem e há de entender ainda melhor, afinal, espero vir desses Experimentos outros recados.

Por que eu não consigo escrever?

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Autorretrato, Gustave Coubert

§- Eu tenho dificuldades para escrever com frequência. Isso diz muito respeito a duas coisas minhas que costumam andar juntas como irmãos siameses. Aquilo que me paralisa o ofício nada mais é senão o pecado da preguiça aliado à vontade de conceber o Absoluto.

§- Se tem uma coisa que me deixa incomodado é a crença que não se justifica, quando alguém lança uma opinião como se fosse um dado da ordem das coisas, portanto absolutamente objetivo e escusado do trabalho do logos, do discurso, da razão. A doxa, em um ato de fala, só tem valor para mim quando ela está justificada (não precisa necessariamente ser verdadeira, afinal, isso nós vamos descobrindo e corrigindo depois, com o dia-logo[s]). Quando não, penso que ela, a doxa, nada mais seja do que sua versão degenerada: a ideologia.

§- Desejando muito conceber aquilo que é, independente de tempo ou espaço ou sujeito, portanto, aquilo que não é relativo a alguma coisa, mas que é absoluto em si, me vejo ainda diante de dois empecilhos. O primeiro é a própria matéria-prima que tenho disponível para operar, ao passo em que o segundo diz bem mais respeito ao operador. Temos diante de nós uma realidade material que, como bem reparou Heráclito, veio do fogo e ao fogo retornará. Queima-se constante na mudança e para captar seu nervo mais perene é necessário grande esforço da mente, e aqui vem a parte onde a preguiça me corta as pernas. Aquele segundo obstáculo, por sua vez, diz respeito a mim, mas também a nós. É que tenho, na espécie, lacunas em minha formação e desse modo não tenho acesso a técnicas que me ajudariam a operar melhor esse cavalo selvagem chamado fenômeno, e mesmo que houvesse eu estudado mais no passado, ainda não poderia saber de tudo porque tenho, no gênero, – temos – uma razão e um tempo limitado.

§- Tudo isso me provoca uma angústia, uma ansiedade muito grande que eu chamo de Angústia da Ideia. Ela nos lança num Tédio – L’Ennui dos poetas simbolistas – que… esse sim é absoluto. Tristemente absoluto às vezes.

§- Mas, lembrando, a introdução da Fenomenologia do Espírito, do Hegel, talvez esse meu medo de escrever seja antes medo de errar, e isso provoca o efeito contrário do que se deseja. Com medo de não estar próximo da Verdade, acabo abortando meu percurso, que na verdade deve ser um percurso coletivo, o qual envolve vozes mortas e vivas que não são nossas, mas da qual nos apropriamos. Percebo portanto que aquilo que me paralisa é menos a preguiça e mais o orgulho, a soberba.

§- Eu não posso ter medo de errar. Exercitar minha boa disposição ao erro é um trabalho de duplo resultado: ético e epistemológico. No primeiro caso porque isso  faz eu me conhecer melhor e reconhecer o valor do Outro, do não-Eu que é também um Eu fora de mim e que toma parte essencial em nossa busca ingênua, mas produtiva, por esse tal de Absoluto; no segundo, me força a trespassar os limites da própria razão que dispomos.

§- Eu penso que, dessa maneira, essa corda azul que brilha amarrada no nosso pescoço chamada Ideal nos deixa mais vivos quanto mais nos enforca.

A Mímesis de Tarantino:

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§- O meu querido diretor e roteirista, célebre por filmes homéricos como Kill Bill e Pulp Fiction, tem uma outra fama, que não diz respeito diretamente  ao Cinema: a de ser gente boa. Mas se tem uma coisa que deixa ele puto é quando lhe fazem perguntas capciosas sobre o peso negativo da violência em seus filmes [1]. Não é pra menos. Além de ser uma pergunta velha, cuja resposta Tarantino já está cansado de dar, é baseada em um falso raciocínio: o de que a violência do Cinema – e da Arte em geral – é a mesmo dos policiais, traficantes armados, motoristas de Land Rover [2], enfim, daquilo que conhecemos vagamente como “o mundo-Real”. Acontece que são dois fenômenos de natureza distinta e um pouquinho de Aristóteles nos ajuda a entender por quê.
§- No segundo parágrafo de sua Poética, o filósofo grego apresenta o que ele considera como o denominador comum da poesia: a mímesis. Depois de um gap de séculos sem acesso a esse texto e inúmeras leituras e desleituras acumuladas, passou-se a estender esse conceito para as outras artes que não somente a poesia. Mas o que significa mímesis? Ao pé da letra, imitação. Para os gregos, diferente dos cristãos, o Ser não poderia surgir a partir do Nada. Logo, eles não concebiam a ideia de criação propriamente dita. Tudo que surge, surge a partir de algo. A mímesis, portanto, funda uma realidade imaginária tomando como base a realidade propriamente dita. Nesse processo, sempre perdemos algo do original (o que na verdade é o que faz a mímesis gerar conhecimento). Seria impossível para nós seres humanos, com recursos técnicos e cognitivos limitados, elaborar uma mímesis total, ou seja, um produto artístico que não tome como base uma parcela do Real. Assim, para resumir, mímesis é a imitação ou cópia criativa do Real.
§- Para melhor esclarecer a natureza diversa das duas violências, me permito citar um poema já exausto de tão repetido: O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chegar a fingir que é dor / A dor que deveras sente. O que Fernando Pessoa diz nessa quadrinha é mais ou menos o seguinte: o poeta, ao transformar sua dor em poesia, faz com que a dor escrita não seja exatamente a mesma dor sentida. Tarantino também trabalha nessa esteira. Ele mimetiza a violência, usa-a como matéria artística. Seu efeito, portanto, não é o mesmo da fonte. Quando nos deparamos com a violência cotidiana, ela nos provoca diversos sentimentos – dor, medo, revolta etc. –, mas dificilmente irá provocar aquilo que só a violência transmutada em arte consegue: a catarse, a purgação ou exortação de sentimentos profundos devido ao trato estético, ou seja, ao embelezamento da matéria original. Assim, a violência de Tarantido não é a violência “real”, mas a violência estética.
§- Outro fenômeno interessante de se notar na obra desse diretor é como sua mímesis tem um duplo aspecto. Ela trabalha basicamente sobre duas operação: há a mímesis da violência “real” e a mímesis da mímesis, ou seja, a cópia criativa de outras representações de violência presentes na tradição do cinema ocidental e oriental. É essa segunda mímesis que faz dos filmes de Tarantino um verdadeiro intertexto, um filme onde diversos outros filmes estão presentes em sua ausência. Ele não é o primeiro a trabalhar conscientemente isso em arte. Camões, para citar só um exemplo, se aproveitava de pelo menos três fontes em seu processo mimético: da tradição greco-latina, do humanismo italiano (e.g. Petrarca e Dante) e da própria “realidade” (ou Natureza, como entendiam seus contemporâneos).
§- Eu acredito que essa violência estética presta um serviço enorme. Se eu pretendesse ter filhos, um de meus projetos seria o de uma educação pela violência. Cada katanada da Noiva, cada gota de sangue derramada por Django ou pelos Bastardos Inglórios contém uma verdadeira lição de moral e uma representação da nossa natureza como gente que mexe com fogo e aço a todo tempo, mesmo que a katana e a AK-47 estejam guardadas bem no fundo de nossos sonhos. Ou você não acha que sangue escrito no papel ou projetado na parede é uma maneira de salvar o nosso próprio sangue?

1- https://www.youtube.com/watch?v=u7ER_q0B1-I

2- http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/policia/online/crianca-morre-atropelada-na-maraponga-e-policia-investiga-o-caso-1.1639044

21 Princípios da “Militância” Contemporânea:

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Playmobil guiando o povo, Pierre-Adrien Sollier  

Para a direita:

§- Fale, em ritmo de ladainha, que na universidade brasileira só há espaço para autores esquerdistas. Enquanto isso, ignore as leituras de Max Weber. Dê preferência a vídeos de ex-astrólogos.

§- Programa de ação é coisa de bolchevique comedor de criancinhas. Marche para Brasília. Para que, afinal? Chegando lá se descobre. Não se esqueça de desistir no meio do caminho.

§- Para dar caráter crítico ao seu movimento, não esqueça o vocabulário técnico: “Comunismo”. Qualquer coisa além disso é doutrinação marxista.

§- Fale que imposto é imoral e que serviços público são desnecessários. Não se esqueça de chorar para o papai Estado quando sua empresa falir.

§- Liberdade é liberdade para comprar e vender almas e mercadorias.

§- Não frequente aulas. De nenhuma tipo. A não ser que um ex-astrólogo oferte cursos ilegais. Pague por eles, é um bom investimento.

§- Livro é coisa de professoreco marxista. No livre-mercado, a educação política deve se basear em memes de internet.

§- Pense em bloco. Quem lê o que não leio é pilantra. Quem discorda do que falo é esquerdopata.

§- Critique todo tipo de imprensa. Ataque jornais, revistas e sites. Não esqueça de compartilhar notícias deles quando agradam seu ponto de vista.

Para a esquerda:

§- Force uma separação entre teoria e prática. Desconsidere completamente a primeira. Imite o utilitarismo barato daqueles que tanto combate.

§- Compartimente ao máximo as causas. Na hora da autocrítica, a culpa é sempre da célula vizinha.

§- Programa de ação é ideologia burguesa. Na dúvida, leve um tambor.

§- Para dar caráter crítico ao seu movimento, não esqueça o vocabulário técnico: capitalismo opressor“. Qualquer coisa além disso é elitismo academicista.

§- A História parou em 1968. Portanto, imite a visão binária do Estruturalismo de vulgata.

§- Pense em bloco. Quem lê o que não leio é pilantra. Quem discorda do que falo é direitista.

§- Livro é coisa de elitizado opressor. Na pós-modernidade, a educação política deve se basear em memes de internet.

§- Critique todo tipo de imprensa. Ataque jornais, revistas e sites. Não esqueça de compartilhar notícias deles quando agradam seu ponto de vista.

Para o centro:

§- Diga que a verdade está no meio. Sempre. No fim, faça pactos com quem tiver mais dinheiro e diga que investirá em programas sociais quando terminar a construção do viaduto faraônico.

§- Diga que paciência é virtude e que faz bem esperar três ou cinco gerações para terminar o viaduto.

§- Diga que investirá em programas sociais quando terminar a construção do novo viaduto, uma vez que o outro foi derrubado pela chuva.

§- Leve sempre uma liga de cabelo para onde for, a fim de manter o rabo bem preso.

“Gregório de Matos é eleito prefeito de Fortaleza”:

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§- Muitos dos poemas atribuídos a Gregório de Matos são de autoria incerta. Sua “obra”, portanto, ainda demanda cuidadosos estudos. Mesmo conhecendo esse problema da historiografia literária do Brasil, não consigo deixar de entender aqueles poemas como a manifestação de uma mesma psicologia. Quando percorro as páginas do Códice Asensio-Cunha, não consigo deixar de gostar da ideia de que a mesma mão escreveu todos esses poemas. Não consigo ver nos textos daqueles tomos a figura do mesmo homem, da mesma cabeça e da mesma história privada. Alguns historicistas de pouco calibre imaginativo dirão faço isso por falta de trato filológico, bastando duas ou três pesquisas para abolir o fantasma do autor uno.

§- A questão não é assim demais simplória como parece. Na verdade, costumo ler Gregório de Matos de duas maneiras, assim como sugere João Adolfo Hansen. A primeira, por mim ainda não concluída – e talvez nunca o faça -, procura situar o texto no seu espaço e tempo de produção, portando, busca fidelidade filológica. A segunda, antes desleitura que leitura, para lembrar um conceito de Harold Bloom, procura deslocar a obra de seu contexto de produção originário, pondo-a em livre perspectiva.

§- É nessa segunda maneira de ler Gregório que o fantasma do baiano suspeitíssimo – e possivelmente picareta – me persegue.

§- Como resultado disso, ouço a voz de um desbocado que a tudo engole, inclusive a si. Nesse mira, interessam não os seus sonetos de arrependimento duvidoso, mas a sátira gulosa: essa que não permite ao leitor cético botar fé nem no criticando, tampouco no criticado. É dessa lavra o atualíssimo soneto sobre a vida estudantil:

“Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante”.

§- Ora, admita que visualizou pelo menos seis – seis?! quiçá sessenta! – pessoas dentro desse geral perfil. Nesses momentos eu vejo um Gregório de Matos matando aula de Introdução à Linguística no bosque Moreira Campos, escrevendo sonetos de domínio suspeito. Eu? Só observo.

§- Ainda há lá as vezes em que ele pega uma 55 comigo, tem sua carteira batida e brada em plena Bezerra de Menezes:

“De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder”.

§- Salvador é Fortaleza. Brasil Colônia e Brasil da Cobra. Séculos XVII e XXI. O que mudou? Furtar e fuder é coisa bíblica de tão antigo.