Centaura marinha [Verso]:

Centaura_Sara Sanchez.jpg

[Centaura y el océano atlántico, Sara Sanchez Alonso]

§

É fogo quem te molha, é vento quem te aquece,
Centaura ensolarada da cabeça ao casco.
Quando andas na praia, há o cheiro do damasco,
Guardiã das marés em singular espécie. Continue Lendo “Centaura marinha [Verso]:”

Anúncios

JUSTIÇA E CATARSE: DUAS DEFINIÇÕES

naom_593c57729386a

§- Sempre que sofremos alguma sorte de dano, seja provocado por coisa, por pessoas, ou por pessoas manejando coisas, inevitavelmente somos tomados por um sentimento de desajuste. “As coisas não deveriam ser assim. Há algo fora de seu lugar”. Imaginemos a cena típica do Chaves acertando o Quico, que grita pela intervenção de Dona Florinda, que por sua vez acerta o Seu Madruga. Nós rimos, mas um riso meio desajustado. Conheço pessoas que não conseguem assistir ao programa pela repetição desse esquema narrativo. Nesse caso, o desajuste é maior do que o riso (porque, sim, eu creio que ele persiste). O que entra em jogo aqui é o desarranjo como elemento constituinte da Injustiça. Se nenhum empirismo absolutista guia nosso processo de pensamento, então fica fácil deduzir, a partir disso, que o arranjo, o ajuste seria o elemento constituinte de seu oposto: a Justiça.

Continue Lendo “JUSTIÇA E CATARSE: DUAS DEFINIÇÕES”

Por que eu não consigo escrever?

gustave_courbet_auto-retrato

Autorretrato, Gustave Coubert

§- Eu tenho dificuldades para escrever com frequência. Isso diz muito respeito a duas coisas minhas que costumam andar juntas como irmãos siameses. Aquilo que me paralisa o ofício nada mais é senão o pecado da preguiça aliado à vontade de conceber o Absoluto.

Continue Lendo “Por que eu não consigo escrever?”

A Mímesis de Tarantino:

quentin-tarantino

§- O meu querido diretor e roteirista, célebre por filmes homéricos como Kill Bill e Pulp Fiction, tem uma outra fama, que não diz respeito diretamente  ao Cinema: a de ser gente boa. Mas se tem uma coisa que deixa ele puto é quando lhe fazem perguntas capciosas sobre o peso negativo da violência em seus filmes [1]. Não é pra menos. Além de ser uma pergunta velha, cuja resposta Tarantino já está cansado de dar, é baseada em um falso raciocínio: o de que a violência do Cinema – e da Arte em geral – é a mesmo dos policiais, traficantes armados, motoristas de Land Rover [2], enfim, daquilo que conhecemos vagamente como “o mundo-Real”. Acontece que são dois fenômenos de natureza distinta e um pouquinho de Aristóteles nos ajuda a entender por quê.

Continue Lendo “A Mímesis de Tarantino:”

Desvelando as metáforas de “Raio Lento”:

12-iltempoelaclessidra-saturno

“[…] É que o Tempo é um raio lento, fantasma das palavras […]”

§- O texto já começa com uma metáfora: “tempo [é um], raio lento […]”. O traço semântico de temporalidade percorre claramente as duas bordas da metáfora. Assumindo a visão corrente do Tempo como sucessão, contudo, temos o substantivo tempo invocando o traço semântico de mais temporalidade, ao passo em que o sintagma raio lento evoca menos temporalidade, configurando então um paradoxo velado na metáfora. Essa contradição resolve-se quando se passa do Tempo como sucessão, o tempo da Física, ao Tempo como processo, como devir, ou seja, o Tempo da Vida. Que significa ser o Tempo um raio lento, portanto? Diz respeito a assumi-lo como processo presente. A passagem dos raios do sol à lua e da lua à terra é um processo. O raio, entretanto, agora também metáfora para o vivido, permanece o mesmo.

Continue Lendo “Desvelando as metáforas de “Raio Lento”:”

Sobre o Tempo e “Raio Lento”

saturno cortando as asas do cupido

“Saturno cortando as asas do Cupido”, de Ivan Akimov

§- Qual a natureza do Tempo? Talvez tenha sido essa a pergunta que norteou o processo criativo de Raio Lento, canção composta por meu amigo Thiago Soares. Lançada assim pode parecer aos mais incautos ser essa uma pergunta simples e de resposta fácil. “Que seria o tempo, ora?! Aquilo que passa, ou o que faz passar as coisas”, diriam. Basta entretanto uma brevíssima passagem pela História do Tempo para percebermos que nosso tempo não se escreve com minúscula, tampouco no singular. Continue Lendo “Sobre o Tempo e “Raio Lento””