Por que eu não consigo escrever?

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Autorretrato, Gustave Coubert

§- Eu tenho dificuldades para escrever com frequência. Isso diz muito respeito a duas coisas minhas que costumam andar juntas como irmãos siameses. Aquilo que me paralisa o ofício nada mais é senão o pecado da preguiça aliado à vontade de conceber o Absoluto.

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A Mímesis de Tarantino:

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§- O meu querido diretor e roteirista, célebre por filmes homéricos como Kill Bill e Pulp Fiction, tem uma outra fama, que não diz respeito diretamente  ao Cinema: a de ser gente boa. Mas se tem uma coisa que deixa ele puto é quando lhe fazem perguntas capciosas sobre o peso negativo da violência em seus filmes [1]. Não é pra menos. Além de ser uma pergunta velha, cuja resposta Tarantino já está cansado de dar, é baseada em um falso raciocínio: o de que a violência do Cinema – e da Arte em geral – é a mesmo dos policiais, traficantes armados, motoristas de Land Rover [2], enfim, daquilo que conhecemos vagamente como “o mundo-Real”. Acontece que são dois fenômenos de natureza distinta e um pouquinho de Aristóteles nos ajuda a entender por quê.

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Desvelando as metáforas de “Raio Lento”:

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“[…] É que o Tempo é um raio lento, fantasma das palavras […]”

§- O texto já começa com uma metáfora: “tempo [é um], raio lento […]”. O traço semântico de temporalidade percorre claramente as duas bordas da metáfora. Assumindo a visão corrente do Tempo como sucessão, contudo, temos o substantivo tempo invocando o traço semântico de mais temporalidade, ao passo em que o sintagma raio lento evoca menos temporalidade, configurando então um paradoxo velado na metáfora. Essa contradição resolve-se quando se passa do Tempo como sucessão, o tempo da Física, ao Tempo como processo, como devir, ou seja, o Tempo da Vida. Que significa ser o Tempo um raio lento, portanto? Diz respeito a assumi-lo como processo presente. A passagem dos raios do sol à lua e da lua à terra é um processo. O raio, entretanto, agora também metáfora para o vivido, permanece o mesmo.

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Sobre o Tempo e “Raio Lento”

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“Saturno cortando as asas do Cupido”, de Ivan Akimov

§- Qual a natureza do Tempo? Talvez tenha sido essa a pergunta que norteou o processo criativo de Raio Lento, canção composta por meu amigo Thiago Soares. Lançada assim pode parecer aos mais incautos ser essa uma pergunta simples e de resposta fácil. “Que seria o tempo, ora?! Aquilo que passa, ou o que faz passar as coisas”, diriam. Basta entretanto uma brevíssima passagem pela História do Tempo para percebermos que nosso tempo não se escreve com minúscula, tampouco no singular. Continue Lendo “Sobre o Tempo e “Raio Lento””

“Agrada-me puxar a corda do Ideal”

§- As astúcias da memória não poupam esforços em nos frustrar. “Esquecer é não ter sido”, diz o narrador d’A confissão de Lúcio. Como não desejo, portanto, que aquilo que pensei não tenha sido, resolvi escrever aqui; como artifício para não ser escravo da minha falta de memória. Não se incomode então se no percurso torno pública a minha estupidez. Mas – não minto – espero que, reparando na minha, você tome nota igualmente da sua.

§- É que “agrada-me puxar a corda do Ideal”, apesar de ultimamente puxar outras coisas também. Quando li esse poema do Mallarmé pela primeira vez – “O Sineiro”, o título – compreendi que nós platônicos e platonistas estamos fadados a enforcarmo-nos com a corda de nosso próprio Ideal. Não que necessariamente lutamos a sangue e suor por ele, mas a corda aperta, querendo ou não.

§- Só que não escreverei para desafogá-la. É boa e urgente a necessidade de se aprender a gritar com a corda no pescoço.